sábado, 7 de dezembro de 2013

Lulu, igualdade, o homem objeto e o revanchismo.

Mulheres vingativazinhas, cuidado com o Lulu é o que tenho pra dizer, cuidado com o que ele pode representar.

No início de uma aula uma aluna loira sexy, que é uma gata sedutora por sinal, veio com as boas péssimas novas: I saw your Lulu profile, your grade is 7,5. Lulu tells the truth, that's bad for you.

Levei 7,5 na Lulu? Eu mereço muito mais poxa vida. Estou triste com o Lulu. Buá. 

Eu sei quem foi a única pessoa que me avaliou, afinal em quase 3 anos que namorava, só me envolvi com uma pessoa num período que me separei. Não me surpreende que justo essa moçoila tenha feito isso porque ela foi rejeitada porque acabei voltando com minha atual ex, mas também porque ela fez com que eu me sentisse um homem objeto. Explicando brevemente, eu não queria fazer sexo com ela, a gente mal se conhecia, mas ela ficou pelada, me deu vinho e me induziu a fazê-lo, como homens costumam muitas vezes fazer com mulheres. Parece deboche, mas foi o que rolou: ela só queria me comer aquele dia e conseguiu.




A gata me comendo por trás.


Pode ser que me digam que é uma tendência natural do mundo, que hoje as mulheres tem mais possibilidades de exercer um papel ativo em suas próprias vidas o que as leva a se conhecerem mais e serem mais livres para se sentirem bem pra seduzir com vinho e comer um macho. Sim, pode ser isso, mas se for esse o caminho acho melhor mudar a rota, gatas.

As mulheres estão caminhando pro lado negro do que é ser homem, o que inclui coisificar as mulheres, transformá-las em objeto. Essa é a minha implicância maior com o Lulu. 

Poderia usar vários argumentos pra explicar porque esse aplicativo é idiota e nefasto, mas a principal é a nota. Alferir notas para um ser humano, seu senso de humor, forma de beijar e performance no sexo, é transformar em números experiências humanas singulares, é coisificar humanos.  Dizem que esse app é uma grande piada, só que já se sabe que pra muitos não é. Não só minha aluna levou em consideração eu ter 7,5, como também alguns amigos idiotas ficaram preocupadíssimos com sua nota e alguns processos estão rolando. Tanto é, que já existe agora o Lulu fake, em que homens tem a possibilidade de "melhorar a sua reputação em menos de 24h"(sic)! 

Que fique claro antes que alguma feminista ortodoxa me ataque, que o comportamento coisificador é péssimo tanto pra mulheres quanto homens e é disso que eu quero tratar aqui. Esse aplicativo, a dita busca por igualdade e o próprio feminismo podem ser caminhos bem perniciosos.


Novo lançamento da IKEA, homem-mesa.



A Juliana M. Dias em um texto no Ornitorrinco disse que "feminismo significa uma luta por igualdade. Não precisa fugir dessa palavra, ela não morde." Gostei do texo e do que a Juliana escreve, mas discordo. Sim fuja dessa palavra, ela morde. 

Entendo que por serem históricamente subjulgadas e diminuidas de seu potencial humano só por um cromossomo de diferença, as mulheres devem lutar por direitos iguais.  A real é que se o mundo tivesse mais pessoas humanas, conscientes e lúcidas essa luta nem precisaria existir. Não é o caso, e a luta tem que existir, o problema não é a luta.

A primeira questão é que feminismo é uma palavra etimologicamente nociva, já que -ismo pode ser tanto definido como doença,  ou como com conjunto de crenças e doutrinas de um grupo, religião, doutrina, enfim, qualquer uma das opções é uma furada. Mais uma doença? Mais uma doutrina? Mais religião? Acho que já estamos legal disso tudo.
   
A gente também sabe que em uma doutrina ou filosofia existem várias correntes, como as feministas roots que não raspam o suvaco nem usam soutien muitas vezes por uma simples radicalidade adolescente de subverter, ou as que querem associar o ato de lavar louça à serem subjugadas, ou ainda algumas várias auto-denominadas feministas das quais ouvi mais de uma vez essa semana, que o Lulu é muito bom mesmo, porque é um aplicativo feminista(sic) e além do que é isso que os homens sempre fizeram com as mulheres(sic). Como é? Tá bom, aí você pode vir com o argumento de que essas pessoas "não te representam", acho um argumento fraco e sobra pouca gente pra te representar viu? Mas ainda sim o buraco é mais embaixo.

As estatísticas estão mostrando que, no Brasil, a exemplo do que ocorre na maioria dos países, a mulher é maioria nas escolas, tira as melhores notas e vai aumentando sua participação no mercado de trabalho. De cada 10 novos empregos gerados na região metropolitana de São Paulo, 7 são ocupados por mulheres. Quando a Dilma Rousseff foi eleita ela já era  a 18.ª mulher do Mundo com um cargo de liderança de um país, hoje já são mais.

Porque  a luta feminista não foca nos resultados positivos também? 
As feministas não comemoram situações como a do relatório da reforma de Previdência em que as mulheres tem tratamento vantajoso em relação aos homens?

E já que é benefício ninguém discute o direito da mulher de se aposentar mais cedo. Por quê? Nesse caso não se trata de luta por igualdade mais? Ou eu não entendi o que é igualdade? 
Direitos iguais, ok, tem homem hoje que cuida dos filhos e lava a louça enquanto a mulher trabalha. Tem mocinha que ganha um salário decente e acha #umabsurdo #chatiada se o rapaz não oferece pra pagar seu motel? Ah não, motel e camisinha não dá! Oi?? Que igualdade é essa que gosta de ser chamada de sexo frágil e só quer igualdade quando é conveniente? 



Eu estou avisando que esse caminho de machificar a mulher é escroto.


Na força bruta em geral vai ser difícil das mulheres derrubarem os homens, não existe igualdade mesmo e sou a favor de gentileza e cavalheirismo sempre, mas no que concerne a força em especial. Apesar de todas as discriminações, é uma infantilidade conveniente esse negócio de se chamar de "sexo frágil", especialmente em termos de saúde, todos sabem que a mulher tem expectativa de vida maior que a do homem.


E esses argumentos todos são em especial porque eu questiono: Pra que usar o Lulu? As mulheres querem criticar o comportamento objetificador dos homens, agindo da mesma forma, ou seja, só vale o sexismo e objetificação se a vítima é mulher? Substituir o machismo pelo feminismo? Mais doutrinas? Radicalismos? Ou melhor, lutar contra o machismo com o feminismo e com aplicativos idiotas? 

Vejo que vamos substituir um conjunto de crenças que prega a superioridade masculina por um outro conjunto de crenças. Vejo que vamos passar de uma sociedade que privilegia e beneficia os homens pra uma que privilegia as mulheres através de aplausos pra comportamentos revanchistas, risadas pro que escrotiza os homens e consentimento na desigualdade se for pro que beneficia as mulheres. 

Tudo isso só faz aumentar a dificuldade de entendermos que somos todos HUMANOS antes de mais nada, somos todos gente, gente! Se tem de haver uma luta ela é contra o machismo e não necessariamente a favor de mais um conjunto de ideologias que toca em pontos importantes, mas  que  quer buscar igualdade a acaba que mais reforça a "guerra" dos sexos. Let's make love, not war. 
Direitos iguais sim. Busca de igualdade: não. Se lutamos por igualdade que não seja por revanche, que estejamos cientes que isso trará ônus e bônus, mas que não sejamos iguais no que há de pior do que nos difere, por favor. Homens e mulheres não são iguais. E que bom.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Novo Programa do Governo - "Fora Daqui! causa polêmica, mas resolve.

Existem milhares de mendigos por aí. não sabemos de onde brotam, de onde vieram, só sabemos que são sujos asquerosos e fedorentos e deveriam ser mortos e triturados para serem transformados em sabão.

Esta seria uma possibilidade de acabarmos com dois problemas de uma vez só: 1- não termos mais que ficar cruzando com e vendo esses nojentos nas nossas ruas; 2- mais sabão que poderia ser usado pra limpar os pobres que fedem a manteiga ransa porque não tem dinheiro pra comprar sabão senão passam fome.


Ainda bem que tem gente que não pensa como eu e você, tem soluções melhores e se preocupa de verdade com esses porcos inúteis (os mendigos, não os pobres, neste caso).

o governo do estado em uma parceria super inédita com a prefeitura do Rio, lançou mais um programa para solucionar mazelas como esta. Inspirado em um quadro de grande sucesso do programa Cláudio Ricardo, "De volta pra onde você nunca deveria ter saído" o programa do governo, carinhosamente apelidado de Sujeira Zero, vai se chamar FORA DAQUI! e vai botar muito fedorento pra picar a mula, graças a Deus.


Absurdos como este não vão mais acontecer depois do Fora Daqui!


o novo programa do governo finalmente fez alguma coisa de bacana pros mendigos. o Fora daqui! leva eles de volta pra sua origem, pras suas famílias, ou pras ruas das suas famílias, bem longe das ruas do Rio. Caso o mendigo não tenha família, ou não saiba mais se é gente, não há problema. ele é cuidadosamente jogado no próximo município de menor distância do local em que ele foi achado.

E não é pouca bobagem esse programa não. Não bastasse toda a generosidade governamental, os xexelentos inclusive voltam de ônibus da prefeitura com ar condicionado. o ar condicionado na verdade nao funciona, mas são todos ônibus com ar.

esta sim, sem dúvidas, é uma bela medida do governo pra acabar com a sujeira nas ruas. pense você naqueles dias que está com sua esposa e um ser asqueroso desses passa te olhando, ou pior, pedindo alguma coisa, de ambas as formas se portando de maneira inconveniente.  assim, o Fora Daqui! que apesar de estar custando cerca de 60 bilhões aos cofres públicos nos poupa muito.

Primeiramente, o Fora Daqui! nos poupa de termos que dar um fora daqui! simbólico, muitas vezes gastando até R$5 em comidas ou esmolas. Também nos poupa energia e tempo precisosos que gastaríamos para nos esquivarmos desses chorumes humanos em uma caminhada circular mais longa, ou ainda, finalmente, nos poupa de visões desagradáveis na nossa rotina.

além disso, uma outra perspectiva interessante do Fora Daqui! é que ao ser carinhosamente despejado em novo logradouro, existe maior probabilidade do nojento maltrapilho ser notado e receber maior percentagem de esmolas/dia, justo por ser um elemento novo na paisagem.

O Ornitorrinco me mandou às ruas para perguntar aos mendigos o que eles achavam da medida. Graças ao Fora Daqui! não encontrei nenhum na Zonal Sul. na verdade encontrei um, mas preferi não perguntar.



Dois exemplos de obstáculos que não teremos mais que superar depois do Fora Daqui!



Um dos que encontrei, mas não terei mais que encontrar é um mendigo repugnante que fica perto do posto de polícia do Largo do Machado. muitas vezes ele fica simplesmente em pé, olhando pra diagonal, ao lado da banca, na direção da 2 de Dezembro. frequentemente ele ri olhando pro nada. ou ri olhando pras pessoas. dá no mesmo. eu achava que ele era louco porque frequentemente o olhar dele ia sem direção, mas parece que não é bem assim.

ele é cor marrom escuro, cor de chocolate amargo, olhos vermelhos, é levemente bochechudo, o cabelo tem uma coroa careca, um buraco no topo da cabeça, quatro dreads de 20cm de largura e de tamanhos diferentes e sempre com resto de folhas secas ou comida. as roupas são pretas, ou estão tão sujas que parecem pretas. a lateral da calça está tão rasgada que dá pra ver o pau dele de lado. ele fede. fede bastante.

Muitas pessoas como você e eu, passam e, simplesmente passam. não tem uma reação de "oh! que nojo", ou, "nossa! que fedor", ou "meu deus, dane-se esse ser". nenhuma dessas. não há mais reação. e assim temos aí mais uma contradição nos que foram contra o programa, afinal porque eles se incomodam com a remoção de lixo se eles mesmo nem viam este lixo? Não é absurdo? eu mesmo só prestei atenção a este bicho e anotei todos estes detalhes por puro prazer jornalístico e compromisso com o Ornitorrinco.


essa sensação de ser um fantasma, uma alma penada vagando, sem saber que está morto, e de fato,  ele fede como um defunto apodrecendo, mas não está morto. ele está muitas vezes ali, em frente à galeteria, em pé, vivo, olhando o fluxo de pessoas. bom, agora com o Fora Daqui! não estará mais. ufa!


Um exemplo de gastos desnecessários que o Fora Daqui! vai nos poupar.





finalizo pedindo perdão, caríssimo leitor. sei que usei palavras e vocabulário chulo e posso ter ofendido, peço perdão. mas o fato é que falar morador de rua é só uma desculpa, um eufemismo pra atenuar nossa culpa, porque morar não é bem o caso aqui né? a mesma culpa implícita daqueles dois reais ou aquele salgado com refresco que você tinha que pagar antes do Fora Daqui!, mesmo que não tivesse vontade real de pagar, mesmo que na verdade fosse só para que aquele ser de mau gosto saísse do seu raio de visão. sei que fui um pouco duro nas palavras e usei da agressividade pra falar desses coliformes fecais gigantescos, peço perdão se causei raiva e indignação acima de tudo.

No entanto,  convenhamos, meu nobre e caro leitor, se eu e você realmente estivéssemos indignados com a situação destes pobres seres asquerosos, acho que estaríamos fazendo muito mais do que um texto chamando a atenção pra estas pessoas, no meu caso, ou lendo e se indignando com minhas palavras ironicamente duras, no seu caso.

Um grande beijo e Fora Daqui! neles!



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sobre segredos, olhares e o Maicom



lembra do maicom ? o maicom que é de paracambi, interior fluminense, com a queixadagem dele de chegar ali assim, de cueca, me fez refletir sobre segredos, sobre olhares.

os olhos do maicom estavam vermelhos e nao escondiam muita coisa, mas com aquele olhar perdido e meio boçal, maicom leu o meu olhar. uma coisa (que eu nao falei) foi que quando ele perguntou se vcs estavam sozinhas, maicom, em toda sua rudimenteza garoto de cuecas da cidade de Paracambi, leu nos meus olhos, no olhar que lancei pra vc naquele momento que tinha alguma coisa secreta ali. eu falei que nao estava com ninguém, mas ele insistiu confirmando com o "ãhn" característico depois de cada frase junto com o sorriso psicopata: "aquela ali (vc) é sua né? ãhn?" eu insisti que nao, e ele disse que eu "tava de caô - ãhn?"  eu ri e ele me perguntou o nome da outra e o resto da história vc já sabe.

o olhar, os olhos, o que se esconde por trás... gosto da sensação de eu, sozinho aqui, com minhas idiosincrasias e visões de mundo secretas, pensando e escrevendo sobre o que vc me causa.

gostei de escutar suas visões sobre uma festa de aristocratas em Ipanema olhando no fundo do seu olho, e por 5 segundos que duram 3 horas esquecer que eu estou no trânsito de copacabana e imaginar: será que ela imagina o fascínio que ela exerce nesse momento?

gostei caminhar atrás da sua figura numa trilha com uma luz linda, chapado que parecia um sonho e de chegar perto o suficiente da sua nuca pra sentir seu cheiro, e vc me olha,  inocentemente, (ou talvez nao pq vc nao acredita em incocências né?) sem vislumbrar que I have butterflies in my stomach.

gosto da surpresa de acidentalmente achar uma meia (cheirosa ainda por cima... sim eu cheirei. hahaha)  no meio dos meus travesseiros, e de acordar pra dar aula e ver vc agarrada no meu edredom com a boca aberta e cara de troncha, e estando na aula aqui agora, escrevendo no celular enquanto essas alunas nao fazem idéia que eu penso nisso tudo.

continuo levando em consideração as coincidências secretas que pra alguns podem ser estúpidas,  como vc achar pontos comuns entre eu e sua última paixão, de termos histórias parecidas (mas eu com inteligência emocional, desculpa ae, seu ex burro), como os nossos copos azuis do vinho serem os únicos pares no domingao do salmao, como nossa forma preguiçosa como eu e vc falamos, como o pingente de coruja que acorda misteriosamente na minha cama em Petrópolis, como as figas no nosso peito, e a sincronicidade de vc estar aqui presente justo num momento de virada tão bom da minha vida. e de fato são baboseiras, mas ao mesmo tempo sao fascinantes.

vc falou que algumas relações suas tinham algo de secreto e por tudo que eu falei aqui entendo o fascínio desse poço. gosto muito de te olhar. ponto. mas gosto muito do fato de te olhar depois de vc ter lido isso, te olhar com meu sorrisinho no rosto que diz: eu sei que vc sabe, vc sabe que eu sei. só. eu e vc aqui compartilhamos esse segredo, de saber que vc nao fala nada, mas sabe muito do que tem por tras do segredo do meu olhar. algumas pessoas percebem que tem algo no ar na cozinha de yakissobas e pipocas e perguntam, a namorada dele no ano passado, a minha roomate dessa vez. mas saber? só eu e vc.


prefiro acreditar que sim, algo além desses olhares secretos vai acontecer entre nós. mas nao depende só de mim e como falei domingo e acabei de te dizer depois que vc queimou seu pão: fogo baixo Mulher! fogo baixo deixa as coisas mais gostosas ao contrário do que o Maicom pensa. e tb nao pense que escrevo esse texto só com essa finalidade de que algo aconteça além de olhares. escrever é de alguma forma uma maneira gostosa de tentar encontrar palavras pra esses segredos por trás do meu olhar. escrever é uma maneira de tentar imortalizar, ou sei lá, tornar mais sólido e palpável o que vc me causa. escrever isso é ser franco, comigo e com vc. poderia e ainda pretendo te falar tudo isso, mas além do fato de vc ser claramente uma bocó tabaroa mór pra receber elogios e ouvir coisas desse tipo, as palavras não ficariam registradas, gravando esse instante, que na pior das hipóteses vai ser só um texto sobre o meu olhar fascinado por uma mulher.


sábado, 7 de setembro de 2013

Você tem medo do bicho papão. Tem sim.

O programa que multa os porcos que jogam resíduos no chão, chegou à Copacabana, a famosa princesinha do lixo. Copa é bairro com maior concentração de xexelentos sem educação do Rio. Tanto é, que se o mundo acabasse por uma guerra nuclear e só sobrassem as baratas, como reza a lenda, Copa seria a capital mundial das cascudas, que poderiam zoar demais nos montanhas de coco de cachorro ou montinhos de lixo e resto de comida nas calçadas. Esse Lixo de Programa Zero, digo, Programa Lixo Zero vai arrebentar a boca do balão em Copa depois de multar quase 500 pessoas em uma semana de funcionamento só no Centro da cidade.

Ok, já se sabe que limpar a sujeira dos nojentões que é jogada no lugar errado custa caro; aproximadamente R$ 600 milhões por ano. De acordo com a matéria do G1 hoje,  se fosse possível reduzir em apenas 15% a quantidade de lixo, o dinheiro economizado seria suficiente pra que o governo não construisse 30 clínicas da família ou 22 creches ou 1.184 casas populares,  pra abrigar pessoas mal educadas, nos dois sentidos possíveis da pouca educação.


Aí você ansiozinho que lê meu texto, pode estar pensando, que cara babaca e preconceituoso. E além do mais vai fazer o que, bater palma pra que faz isso? 

Primeiro de tudo, se você tá lendo esse texto a real é que dificilmente vai morar em casa popular, e apesar de se achar acima da carne seca, também joga resíduo no chão, e se não faz, algum amiguinho seu faz e você não fala nada. Se você é fumante, existe 90% de chance de você jogar sua guimba no chão. Mas guimba tá ok né? Porque não suja, é microscópica e evapora quando entra em contato com o solo. E aí, a pergunta que eu faço pros fumantes que flagro fazendo isso é: você jogaria essa guimba no chão da sala da sua casa? Eo coco e o xixi do seu cachorro, poderia fazer no pé da sua cama? E esse chiclete jogaria no chão do seu banheiro? Pra sua informação chiclete não vira asfalto e gruda escrotamente na sola do pé quando o chão tá quente. Quem nunca pisou em um que atire o primeiro chiclete.

Acontece que educar e conscientizar dá trabalho e o resultado só vem bem depois da próxima eleição. Já punir é lucrativo pacas e tem resultados tipo miojo, instantâneo! wow! E aí eu pergunto: você acha que o porcão que joga lixo no chão vai pensar, "poxa, não vou jogar porque sujo a cidade, posso entupir bueiros, porque provoco gastos, dentre outros males que causarei para a linda manada de pessoas que estão interconectadas à mim nesta sociedade?" 
Agora lança uma multa de R$157 na lata dele pra ver se ele não muda! ( R$157 pra resíduos iguais ou menores ao tamanho de uma lata, maior que uma lata e menor que um metro cúbico R$392, e maior que um metro cúbico até R$3000!) E lança essa multa nos cofres públicos pra ver como o sorriso não aumenta.

E aí é que tá o ponto, as coisas mudam, mas é só na casca.  O cara que joga lixo no chão é sem noção. Ele deixa de jogar, pelo medo da punição que dói no bolso e não por entender as consequências da xexelentisse dele.  Existe uma ilusão de mudança, mas não conscientização, entendimento. A psicologia e a sociologia provam que caso não exista fiscalização, punição, o cara muito provavelmente vai voltar ao antigo comportamento.

Em 2012 foram recolhidas 1.225.690 toneladas de porqueira, equivalente a três estádios do Maracanã de lixo. Ok, algo tem que ser feito. Mas é sempre na base da punição? Nunca na educação? Não que não existam campanhas, mas são esporádicas, sem criatividade e sem recorrência. Como uma que vi no metro do Rio esses dias. Um desenho muito escroto de um cara azul com um sorvete na testa dizendo: Quem joga no lixo no chão é zé mané! 
"Eu é que não quero ser zé mané, eita! Vou parar de jogar lixo no chão!"
Pelo amor de Deus, tá de sacanagem com a minha cara né?

Poderia dar milhares exemplos dessa distorção que o medo da punição causa, mas o clássico é  "bota o cinto porque senão o guarda vai te multar." Não é bota o cinto porque se a gente bater você pode morrer ou ficar tetraplégico e tá fudido pra se locomover e viver de foram digna no Rio com essas calçadas esburacadas e sujas, ou melhor, um pouco menos sujas agora com o Lixo Zero. E aí, se nã tem guarda, é muito comum a pessoa não usar o cinto.


Esse tipo de cultura da punição dessas leis e programas do governo, me lembra muito o que algumas mães dizem quando tem preguiça ou não tem intelecto e psicologia pra dar uma explicação razoável pra criança fazer o que ela pede. "Olha só, meu filho, não pode fazer isso porque senão o bicho papão vai te pegar tá?" Ou então, "Faz isso porque senão o Papai do Céu vai ficar zangado com você." Essa é a mensagem subliminar que o governo passa com medidas do tipo Lixo Zero.


No final das contas, eu escrevi esse texto reclamando disso tudo, da falta de educação nos dois sentidos. Conclusão que acabei de ter é que eu estou errado. Eles estão trabalhando sim educação, educam as pessoas de forma infantil.  E você seu porco, não joga mais sua guimba de cigarro no chão, porque senão o bicho papão vai te pegar...
E cobrar R$157 por isso.
O Lixo papão em ação, atacando um "cerdito"

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A casa caiu pra você: seu pai não é o melhor pai do mundo


Olha só, vou te mandar uma real:
Seu pai não é o melhor pai do mundo,
Seu pai não é o super homem.


Abri o facebook hoje e vi umas 50 postagens dizendo isso.
Desculpa ae, mas vocês estão viajando.

Estou em Petrópolis, vim visitar meu pai. O nome dele é Gina, também é conhecido como minha mãe. Meu pai anda meio ausente sabe... tá morto. Mas ele foi meio ausente também, sabe, sem ressentimentos, já faço terapia há algum tempo e hoje já aprendi a amar meu pai, um ser humano.

Num busdoor aqui na cidade Imperial vejo uma propaganda de uma loja de tênis que tem um símbolo de super homem, meu pai super herói, dê um presente, ele merece blablabla. Isso é uma bullshetagem danada, baboseira da porra, mas vende.

Vende no sentido literal, afinal se seu pai é foda, vamos COMPRAR um presente pra ele né? Se a propaganda fosse "seu pai é um bosta, mas compre um presente pra ele" acho que não ia vender muito. E vende também pelo mito de que a gente tem sempre alguém machão, mesmo se seu pai for gay, forte, mesmo se ele for raquítico, exemplar, mesmo se ele for político, enfim, alguém perfeito, que eu te garanto que ele não é, que vai estar sempre com você pra te proteger, mesmo que ele esteja morto. Porém,  caso ele morra, ou falhe, ainda tem o Papai do céu dando cobertura sempre que você precisar. Tenho minhas crenças no meu Deus, mas é certo que não tem nada a ver associar Deus com Papai.

Meu pai já morreu tem mais de 10 anos, mas bem antes disso eu já achava meio forçado esse negócio de meu papai, meu herói, meu Deus, Papai do céu.

Primeiro que falar PA-PAI é bem violentinho, escrotinho. Parece que é gago, ou que tem uma conotação sexual, sei lá, mas o ponto principal não é esse. Não é bacana  porque essa romantizaçao é feita desde a escola, já que quase todas tem esse ritualizinho de dar presentes pro super pai, pai herói.  Se forem escolas católicas, como a que eu estudei, ainda tem isso do Papai do céu.

Lembro que os filhos de um conhecido estudavam com meus sobrinhos nessa mesma escola católica que eu estudei. Vi a molecada saindo no dia dos pais com um porta cd, que eles tinham feito com um desenho do super homem e Papai eu te amo. Esse conhecido era viciado em cocaína, galinha, batia na mulher, não ajudava com as contas, era gordo e feio, mentiroso compulsivo e ainda por cima tirava meleca sem medo de ser feliz na frente de todo mundo. E a mãe estimulava o mito do super pai, apesar do olho roxo. Imagina quando a casa cair pra esse moleques filhos deles?

Duas crianças brincam. Ela começou a falar que o pai DELA era melhor nisso e naquilo que o MEU. E que o pai dela era melhor que meu pai no futebol. Tinha uns 8 anos. Bati na garota e parei de falar com ela, a minha vizinha de casa aqui em Petrópolis. Como assim minha filha? Meu pai é o melhor do mundo no futebol! Ele não perde, é imortal e não se machuca. E pouco tempo depois disso, ele não só se machucou jogando uma pelada, como tomou caneta e vários dribles humilhantes do pai de outro amigo que era bom de bola. Fiquei muito chocado esse dia, um sentimento de vergonha, decepção, sei lá, vai explicar sentimento. O telhado da casa caiu.

Lembro de uma vez que meu pai foi me buscar na saída da escola, inesquecível essa vez. Ele todo arrumado de terno, bonito, a cara do filho, os meus amiguinhos com uma certa invejinha branca que eu lembro dos olhares, porque meu pai era O delegado de policia federal, trabalhava no Rio, minha professora olhando com cara de uau!, foi quase uma presença de um mito, de um super herói,  foi uma super presença. Tão super que essa foi a primeira e única vez e ele nunca ia na festa do dia dos pais. A porta e a janela da casa caíram.

Meu pai não foi um péssimo pai, apesar do que possa parecer. Nunca me deixou faltar nada, tentava dar carinho de maneira torta, mas dava. Me ensinou muita coisa legal: uma vez achei uma carteira lotada de dinheiro com documento e tudo, tinha uns 10 anos. Queria ficar com a grana, lógico. Ele me deu a grana equivalente, mas botou a mesma quantidade ali de volta e me fez ir na casa do cara, que ele conseguiu achar não sei como porque não tinha o google, entregar em mãos a carteira exatamente como achei. Esse mesmo pai, super moralista, super católico que fez bodas de prata na igreja, tinha uma família paralela secreta com uma filha e tudo, hoje minha irmã caçula querida. O que foi uma exemplo legal também porque eu percebi que a poligamia é possível. Piada joselita. Na verdade, quando descobri essa do meu pai, aí sim o resto da casa caiu. E se essa casa não tivesse sido construida, não tinha casa pra cair.

Essa coisa de super pai, pai herói, não é saudável. Seu pai é só uma criança, que foi educada por outras pessoas cheias de falhas, que cresceu e virou seu pai. Seu pai é humano, se ele não errou, pode ter certeza que vai errar e se essa consciência fosse passada desde a escola, ao invés de porta cds com o super homem, a gente viveria num mundo mais real de pais humanos, com choques de realidade menos fortes pra crianças que descobrem que seu pai também perde no futebol,  que seu pai é um viciado em cocaína e bate na sua mãe.

Sim pode até ser que seu pai seja super mesmo, porque existem pessoas muito bacanas nesse mundo e muitas delas se tornam pais, ou também porque o super homem está nos olhos de quem o vê né?
Eu juro que não é inveja, olho grande, eu quero ter o que você tem. Mas, pensa comigo o óbvio: se todo mundo tá postando hoje, "MEU pai é o melhor do mundo", é logicamente impossível que todo mundo esteja certo.
Meu pai sim é o melhor pai do mundo- frase do filho do serginho.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A porra do Lucas


Ha 12 anos atrás eu conheci o porra do Lucas. Não lembro o nome dele. Diego? Ou talvez Fernando? Eu não entendia o que era o Lucas quando o conheci pela primeira vez. Sabia que era um escroto, isso sim.

Sabe uma transa daquelas memoráveis? Só que ela é sua ex-namorada. Situação perigosa que a gente acaba sempre vivendo e revivendo. Acho louvável quem termina e termina mesmo. Eu poucas vezes fui assim, ainda mais se tratando dela, primeira namorada. Estranhamente, depois de um sexo animal, eu deitado na cama pelado e ela se levantou. Parecia estar com pressa e ansiosa. Era uma pressa discreta de querer me enxotar dali. Percebi o pezinho agitado, o andar de um lado pro outro, as indiretas, mas não entendia o porquê. Ela vai até o banheiro. O celular dela acende, uma mensagem: chego em uns 30 minutos. Não era Fernando esse Lucas, era Diego.

Fui pra casa e não me contive, liguei pra ela e percebi que ela estava monossilábica. Perguntei o que não queria ouvir: Ele tá aí, não tá? É por isso que você tá falando assim? Ela ter ficado em silêncio foi a primeira facada. Meu primeiro amor, achava de verdade que ia ter filho e envelhecer com ela e ali me dei conta que não, não ia. Desliguei na cara dela cheio de ódio. Tá achando o que?! Essa vagabunda. Uns cinco minutos depois (que hoje penso devem ter sido uns 30 segundos) Como assim? pensei eu no meu comportamento adolescente de 18 anos, Eu desliguei puto com ela desse jeito e ela não vai me ligar de volta? Não ligou. Bateu o desespero de garoto juvenil, liguei de novo e ameacei sério, falei que se ela não fizesse isso e aquilo outro "eu nunca mais fa-lo com você". E ela? Ela respondeu com uma indiferença humilhantemente dolorosa de quem já estava com o Lucas: Tudo bem.

O nó na garganta que eu senti aquele dia foi tão sólido que parecia que ia me sufocar. Liguei pra uma amigão meu pra afogar as mágoas e tentar aceitar o Lucas. Escrevi sobre aquele sentimento horrivelmente inédito numa folha de papel que tenho até hoje. Bem engraçada de ler. Hoje.

Lembro que esse mesmo amigão também já teve seu Lucas, lembro bem: ele ficou quase no mesmo estado de paralisia nó na garganta com o adicional que teve uma leve taquicardia. Estava ele andando acidentalmente pelas redondezas da casa da ex quando viu o carro dela parado. Um homem no lugar do motorista, e não era o pai dela. Nem o irmão. Putz. Foi logo depois do término, a ex dele com o babaca no carro, cheia de carinho, deitada no colo da porra do Lucas.

Talvez pra muita gente isso seja tranquilo, bom pra vocês Dalaies Lamases, Sidartas e Jesuses, mas uma das coisas mais difíceis depois de um termino é o Lucas. Em geral ele já está sempre rondando, e quando percebe que a carne foi abatida ele vem igual a um abutre atacar a carniça.

Há alguns meses atrás, num domingo a noite, acontece acidentalmente de eu estar com o celular da minha recente ex namorada na mão, e vejo no visor: Lucas chamando. E foi aí que eu surgiu a nomenclatura oficial de Lucas. Me dei conta naquele momento de quantos Lucas já tinham passado na minha vida. Quem é essa pessoa (homem logicamente,  porque nunca conheci umA Lucas) que liga pra MINHA mulher num domingo a noite? Ou que manda mensagenzinha dizendo que chega em 30 minutos? Ou que faz comentário cheio de gracinha no facebook e ela ainda por cima curte? Afinal, quem é essa porra de Lucas??

O escroto do Lucas é quem esfrega na nossa cara esse egoísmo de querer tudo só pra nos, nossa mesquinharia, nossa pequenez de não querer aceitar que ela não foi e não é nossa propriedade. O primeiro erro eu ja sei: MINHA mulher. Não é mais e nem nunca foi. Mas é muito fácil a gente cair na imbecilidade de achar que possui o outro, tanto durante, quanto depois de acabar um relacionamento. Isso de achar que é seu, só seu, e que vão te pedir autorização antes de ficar com ela, e de que ela vai estar pra sempre na sua. A própria linguagem já contribui, o pronome é possessivo e a gente acaba sendo também.

Se terminou e você já está em outro relacionamento, bem e tranquilo, é pouco provável que você se importe com o Lucas. Mas o problema é um pouco mais grave se o bosta do Lucas entra na jogada antes de você arrumar uma Lucas na sua vida. Dá uma certa dorzinha de cotovelo maior se você não arrumou uma Lucas antes da sua ex receber uma ligaçao do puto do Lucas num Domingo a noite.

O segundo erro tá ai: é presumir que o Lucas é muito mais do que é, é dar mais valor e poder ao Lucas do que ele tem. Na hora que li no celular dela "Lucas chamando" imaginei um cara mais bonito, mais interessante, mais rico e que já estava fazendo um sexo mais gostoso do que eu fazia com ela e que a porra do Lucas era mais doce que a minha. Sim ele pode ser tudo isso e ok, ele pode ser o mais novo romance dela, mas também pode ser nada disso. Das 2 maneiras não faz diferença, terminou está terminado. Mas mesmo assim a tendência fácil é voltar pra essa loucurinha juvenil egoísta de querer possuir só pra si.

Não posso ser assim injusto com Lucas, já vi casos de casamentos sendo salvos por causa dele. Porque um dos dois arrumou um Lucas, a outra parte percebeu o quanto amava ou vice versa. Por outro lado também  já vi ele ajudar pessoas a terem mesmo certeza que acabou, quando como conheci uma Lucas no trabalho e percebi que não queria mais estar num relacionamento que, não fosse essa Lucas, poderia ter sido um inferninho bem mais longo ou até pra sempre.

Ok, ok. O lucas não é de todo mal e justo uma das coisas boas do Lucas é isso: ele não é pra sempre.
Ele pode pra sempre existir num curto período pós-términos, mas ele sempre passa.
Hoje já até consigo ver o Lucas com outros olhos sabia? O Lucas passa. O Lucas já passou.
O Lucas é desagradável, mas tenho que admitir que o Lucas me faz uma pessoa melhor a cada vez que eu aprendo a ter mais recursos para lidar com essa situação de término.
Obrigado Lucas...
aproveita e vai se fuder seu filho de uma puta.
Eu, no dia que soube da porra do Lucas a abandonei minha ex(ao fundo) de vez. 



Essa gentalha, os velhos

A gente tá ficando velho. Nunca pensei que ouviria esse clichê numa roda de amigos. Mas é isso mesmo, a gente tá ficando velho. E o mesmo vale pra você, se você é gente.

Eu e meus amigos de escola caímos no clichê que vi meus pais, então velhos pra mim, cometerem: relembrar os velhos tempos. Lembra daquele dia? E daquela vez? Daquela época? Quando você tem mais Passado do que Futuro, você vai para as velhas histórias.


Nesse dia também percebi o óbvio. Existe uma ilusão de que a nossa infância era mais linda e mais romântica e mais divertida e mais colorida e mais saudável que a das crianças de hoje que só querem saber de Xbox, Psp, Wii, e já tem Facebook, Twitter e Instagram. E tenha certeza que nossos pais pensavam que Amarelinha e Pique-esconde e Balão mágico e a Xuxa semi-nua com as paquitas sensualizando era muito modernoso, que a infância boa foi a deles. E tenha certeza que os pais dos nossos pais também achavam a mesma coisa. Mesma coisa é a nossa ilusão de que não vamos viver os clichês de envelhecer.

Envelhecendo, talvez por ter escutado tanto, você também vai soltar um: "Na minha época...". Essa também é uma frase escrotinha. Parece que está implícito que a época que você está vivendo não é sua né? Na minha época como assim? A época de agora não é sua? Ok, são expressões, mas expressões expressam alguma coisa e essa expressa mal alguma coisa. Você não vai ouvir um adolescente falando isso, "Na minha época, quando eu tinha 5 anos". Não. No mínimo desvaloriza o presente e o envelhecer sutilmente. Enfim, sutilezas da complexidade da língua portuguesa como cu que não tem mais acento.

A Odete Roitman dizia que o português é uma língua chinfrim. Eu lembro dessa frase porque foi quando eu aprendi o que era chinfrim. E a pobre da Odete, andando num dia de chuva por uma dessas ruas chinfrins do Rio, caiu de fuça. E com essa modernidade modernosa a gente ficou sabendo rapidão que a fuça dela tava fu. Edu Paes, "gente fina pacas", ligou pra ela depois que ela disse que ia processar a prefeitura ou sei lá quem porque eles tem dinheiro pra JMJ e pra FIFA e pra PAPA e pra UPP e pra PM e pra PQP, mas pra GENTE poder andar paz, não tem Paes? Lógico também que não é porque ela é velha e caiu de cara e ficou parecendo o Bandit do Jonny Quest, mas sim porque ela é velha e famosa. O legal é que a calçada que ela caiu continua esburacada.

Há duas semanas atrás num dia que também chovia muito, era umas 11h da manhã e eu estava no meu carro parado em primeiro lugar na fila em frente ao sinal da Farani com a Praia de Botafogo. Um velhinho, magro e nitidamente frágil, se desequilibrou com o guarda-chuva e o vento e uma outra rua esburacada dessas e caiu de cara no chão na faixa de pedestres. Você acha que o Edu ligou pra ele? Nem Edu nem nenhum cretino que tava nos carros do meu lado. Niguém ligou. O sinal abriu e neguinho arrancou o carro desviando do velho no chão! Tava muito frio, muita chuva, e ninguém ali vai envelhecer mesmo, ninguém ali tem avô, ninguém ali viu razão pra se molhar, ninguém ali é GENTE, né? Eu sai correndo, ajudei ele a levantar, parei um táxi e coloquei ele dentro. Larguei meu carro ligado, de porta aberta, no meio do trânsito e teve idiota que teve a audácia de buzinar pra mim.

De fato envelhecer é mesmo chato e duro. Chato literalmente porque a gente diminui de altura mas duro só com viagra. O corpo insiste naturalmente em falhar, e não só no sexo. O corpo funciona mais lento e quase tudo é pior, se você assim quiser enxergar mesmo quando não enxerga mais.

E será que ninguém além de mim enxerga e acha chato que não tem propaganda de cerveja com uma velha gostosa como principal? Velho em propaganda só se for de dentadura, remédio ou pra fazer gracinha e ridicularizar a velhice. Velho não vende. Velho não tem valor a não ser pra financeira que quer fazer empréstimo porque é interessante pra empresa deles, não porque eles acham os velhinhos fofos.

Falando nisso, ninguém ouve e acha bizarro essa coisa mesmo de falar: "ai que fofo!" ou "o velhinho, bonitinho, tadinho, fofinho" e outros inhos falando de velho, de velha, de casal de velhos? É tão comum, mas tão nocivo. Existe um sentimento de superioridade absurdo implícito nisso. Você usa essa expressão pra quem? Pra bicho, pra bebê, pra mendigo, pra criança... Você não usa esse tom pra uma pessoa jovem e sarada da sua idade.

Ninguém vende a sabedoria, a calma, a serenidade, que eu pelo menos espero ter triplicado daqui a 30 anos. Não tenho 80 anos e meu corpo ainda não falha muito, mas já tenho barba branca e metabolismo bem mais lento e espero daqui a 40 anos ainda ser considerado gente.

Esse discurso todo, mas eu não gosto de muita gente. Saí do Rio pra fugir da quantidade exorbitante de gente da JMJ e fui pra Petrópolis ficar com meus sobrinhos e jogar essas porcarias da criançada de hoje, tipo Xbox. Coisa mais idiota dessa criançada de hoje. Acabei jogando 3 dias seguidos só de raiva. Mas voltando ao assunto, a JMJ, acho meio tosco ser JMJ. Até a igreja com seus moralismos e politicamente corretos tem uma jornada pros jovens, porque não pra Gente? Porque não JMG?

Tudo isso contribui pra que meu amigo fale com certo pesar numa conversa "é... a gente tá ficando velho." Velho, mas a gente continua gente, meu amigo. Acima de velho, jovem, Papa, Puta, a gente é gente. E gente, pelamordedeus, se eu ou a Odete ou um PM ou o Paes cairmos de cara no chão, por favor ajude, todo mundo é gente.

Que velhinha fofinhazinha!

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Desculpe o transtorno: estamos demonstrando nosso egoísmo


" O mundo é dos espertos, minha tia!" ao som de o Rio de Janeiro continua lindo em versão Bossa Nova, foi uma das primeiras lembranças de quando vim visitar o Rio bem pequeno.

Até meus 17 anos, antes de ir morar em NY, eu vivia em Petrópolis, uma cidade de 300 mil habitantes, que está a 50 minutos do Rio, e é opressoramente fria e pacatamente chata. 

Uma das primeiras vezes que vim ao Rio, essa cena ficou na minha memória: minha mãe esperando uma vaga, ela sai do carro pra pedir uma informação ao guarda, vem um cara e entra rápido na frente dela. Quando ela foi argumentar, o malandrão teve a cara dura de dizer:" O mundo é dos espertos, minha tia!"

O carioca tem fama de metido a esperto, e assim somos na nossa maioria mesmo. Poderia citar milhares de exemplos, mas vou me limitar a exemplos que interferem no funcionamento de grande parte dessa nossa comunidade sem comunhão. 

O primo de um amigo é a caricatura do carioca esperto. Foi pra Floripa e ria todos os dias de como a galera era "agarrada" no trânsito: "Maior fila pra entrar na ponte e eu entro lá na frente." Essa mentalidade eu vejo todos os dias no trânsito, seja  de bicicleta ou de carro.


Todo dia: o cara só quer chegar o carro DELE o máximo pra frente o possível e pronto, bloqueou o cruzamento. O outro egoísta do outro lado buzina como se o mundo girasse em torno dele e todos nós achássemos agradabilíssimo alguém tochando a mão na merda da buzina. E pra piorar o trânsito tem a síndrome do pisca-alerta é altas: o cara acha que liga o pisca-alerta pode fazer qualquer coisa no trânsito, tipo estou de altas, desde parar em qualquer lugar e bloquear uma pista inteira por 5 minutos pra fazer qualquer coisa, até as manobras mais esdrúxulas que o motorista que vem atrás tem que adivinhar. Sem falar que o trânsito está cada vez mais insuportável, e reparo que 90% dos carros tem só um egoísta esperto dentro. 

Minha impressão é que a malandragem egoísta reina no Rio, mas tenho muitos amigos baianos que me dizem que é tudo muito parecido por lá, seja no trânsito, seja na mentalidade.

Por outras bandas, o Zé, irmão de um amigo de Petrópolis, conheceu uma dinamarquesa. Eles se apaixonaram. O sexo era frio, mas ela não se atrasava. O beijo era seco, mas ela tinha noção de sociedade. Deve ser por isso que ele se mudou pro verão de 3 dias e pros - 20 graus de lá.

Um dia, Zé, como bom exemplo de queimador de filme de brasileiro, chegou no seu primeiro dia de trabalho atrasado.( Só faltava ter roubado alguma coisinha do escritório, ou parado em local proibido.) Pra sua enorme surpresa de atrasado, em um estacionamento gigante da sua empresa, quase dez minutos de caminhada das vagas mais distantes, havia uma vaga bem ao lado do escritório.

No dia seguinte, de novo: atrasado. Pra sua gigante e enorme surpresa, uma vaga ainda mais perto do escritório!

Pra dar uma variada na vagabundagem, ele decidiu se organizar e chegar bem cedo no dia seguinte e entendeu o que estava acontecendo e o que é ter noção de sociedade. As pessoas que chegavam mais cedo estacionavam nas vagas mais distantes possíveis. Por que? Porque quem chegasse atrasado teria menos tempo pra caminhar o estacionamento todo e seria beneficiado ao estacionar mais próximo ao escritório. Não é lei, não é regra, não é obrigação. É simplesmente um exemplo de noção de comunidade, de interdependência, é uma forma de pensar, uma mentalidade que consequentemente gera uma forma de se comportar.

Exaltar os exemplos gringos não se trata de determinismo geográfico ou daquele velho papo idiota de superioridade européia. Mas a questão é: muitas coisas na Dinamarca funcionam, as escolas educam, os hospitais atendem, enfim, o sistema funciona. E o porquê é em grande parte a mentalidade, a noção do que é viver em comunidade.

Uma definição de comunidade é: Comunhão, sociedade, nacionalidade, agremiação de indivíduos que têm a mesma crença ou a mesma norma de vida. Sim, cariocas, brasileiros, nós temos a mesma norma de vida : o egoísmo.

Essas manifestações me deram uma impressão positiva sim evidentemente, nós levantamos a bunda do sofá e fizemos alguma coisa! Ironicamente muita gente saiu do facebook... Só pra postar fotos cult no próprio facebook dizendo que estava lá. Ironia a parte e em parte, teve sim muitos lados positivos,  entre eles ilustrar a falta de coesão desse povo que faz mais do que a obrigação. 

Sim, tinha muita gente com propósito claro: muita gente achando que era micareta, muito fanfarrão, muito aproveitador, muito vendedor, muito alienado, muito politizado, muito de muita coisa, e um traço muito marcante: muito cada um por si, muito bobo pensando só no seu próprio rabo em uma manifestação coletivamente egoísta. 
Eu com MINHA reivindicação que é sem dúvidas a mais importante de todas.

O que era pra ir contra os governantes, que poxa gente, coitados, só querem poder roubar e avacalhar o país em paz, e fecham ruas, desligam câmeras, apagam luzes só pra poderem usar um sprayzinho de pimenta (no dos outros é refresco), usar umas bombinhas de gás lacrimogênio e dar uns tirinhos de borracha... Pois é, acaba sendo um tiro no nosso pé, vamos combater o egoísmo demonstrando como podemos ser egoístas.

Parece que ninguém pensa num funcionamento mais abrangente e conectado das coisas. Vamos pra rua e foda-se. Foda-se que ela mora em  Deodoro e vai se fuder pra ir pra casa porque a estação está fechada, foda-se que ele, que é tão alienado quanto você que está na passeata, optou não participar mas levou tiro de borracha na cara mesmo assim, foda-se que aqui é uma área residencial da Tijuca e tem famílias com crianças porque eu vim em PAZ,tá ok, contra o Paes, tá ok,e por isso vale tirar a paz de quem vive aqui, tá ok ???! Foda-se, o protesto é maior, a minha causa é nobre e justifica tudo.

Não tiro absolutamente o valor do vem pra rua e foda-se. Num primeiríssimo momento valeu. Agora é hora de organizar mais esse movimento e não continuar no cada um por si egoísta fugindo de bala de borracha.

Cada um por si tem seu valor logicamente. Ter atitude egoístas não te torna um egoísta total. Egoísmo tem naturalmente uma ranso negativo, mas não é necessariamente ruim.Steve Jobs foi um belo de um egoísta babaquinha, quando teve uma filha com a namorada de longa data Chrisann Brennan, aos 23 anos, ele não apenas negou a paternidade como notoriamente terminou com Chrisann. Tudo em prol de si mesmo e do seu trabalho. Mas sem o egoísmo dele eu poderia não estar escrevendo esse texto agora aqui no meu iphone. No caso do avião despressurizar, você tem que ser egoísta e pensar sim primeiro em você, dane-se que sua filha de dois anos está apavorada e sem ar. Egoísmo salva vidas. Ser egoísta e pensar só em si, na própria mudança, o velho cliché de a mudança começa de dentro, é verdadeiro e seria ótimo aqui nesse momento, mas o egoísmo aqui é o tradicional mesmo.

Quando em situação de convívio ou um movimento buscando mudanças que acontece com outros seres de uma mesma sociedade, o carioca,o brasileiro, é quase sempre inconscientemente egoísta.

Pode parecer que eu me acho o pica de ouro e estou fora desse povo ae, mas não. Sou egoísta muitas vezes, lógico, não sou exemplar: falsifico carteira de estudante, ainda ando sozinho de carro, já liguei pisca-alerta e bloqueei uma pista pra deixar alguém, já parei em local proibido, já furei fila. Procuro ter mais consciência, sou uma carro a menos com minha bike quase sempre e procuro não fazer mais estas coisas. 

São atitudes pequenas que parecem inofensivas e que tenho certeza que muita gente lendo esse texto já fez ou faz, mas elas refletem crenças e pensamentos que tem grande participação do nosso fracasso como sociedade interdependente.

O egoísmo do brasileiro fortalece a nossa incapacidade de nos percebermos como interdependentes, essa falta de entendimento do que é coletividade. A gente burla as leis e pensa muito em salvar o próprio rabo porque não confia na justiça, não confia num estado que te cobra pra cacete, mas não te dá quase nada. Aqui é cada um por si, aqui o mundo é dos espertos e acaba sendo todos contra todos, mesmo quando era pra ser todos juntos. Isso acaba com a confiança no respeito às leis, com a fé nas instituições públicas, em nós mesmo como sociedade interconectada. 

E afinal, tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais??

E esse é o ponto, a mudança começa em cada um de nós e as coisas mudam e não só o contrário. Cobra-se dos políticos porque é muito fácil pegar alguém pra Judas, mas tá faltando olhar um pouco pro próprio rabo pensando no rabo dos outros, mudar dentro pra mudar fora. Se é pra ser egoísta, vamos ser egoístas direito.


quarta-feira, 3 de julho de 2013

Sobre um povo que não faz mais do que a obrigação

Meu sobrinho me pergunta sobre o livro do Ornitorrinco: - Titi, trouxe teu livro pra eu ver? Achei muito maneiro aquele desenho daquele bicho (ele não sabe como é um ornitorrinco, ok?) na capa.  Ele achou um sucesso. Simples: porque tem um desenho maneiro na capa. Depois ele faz o adendo que a vovó ( minha mãe) falou pra ele que meu livro deveria ser uma merda, porque com esse nome " Ornitorrinco", não poderia ser coisa boa. Achei o máximo. Não ele ter me contado que ela fez esse comentário, sim ter lançado o livro e sim ele ter adorado. Por outro lado também ela ter feito esse comentário, porque através dele eu pude perceber como a gente pode usar a auto crítica como defesa, como a gente as vezes fez muito, mas tá condicionado a pensar que não fez mais do que a obrigação e como a gente acha que o conceito de sucesso é regulamentado pela ABNT.  

A auto crítica é muitas vezes uma forma de se blindar desse tipo de "ataque da mamãe", é nossa nossa forma de não saber lidar bem com um comentário negativo sobre quem somos ou sobre o que fazemos. Antes mesmo de você falar que meu livro ficou uma bosta eu já acho que ficou uma bosta e inclusive enfatizo as razões pela qual ficou uma bosta. Porque a gente se foca mais no negativo? A gente se enfraquece.

Por muito tempo eu usei a auto-crítica depreciativa. Também já vi muita gente usando a mesma tática, uns por falsa modéstia, outros pela brasilidade no sangue, outros talvez pela mesma razão que eu usava.

Esse tipo de comentário que minha mãe faz, já não me afeta, mas imagine você ouvir coisa parecida do seu pai, dos 5 aos 15 anos, a toda nota 10 tirada: Você só estuda, não fez mais do que obrigação. Essa frase aparentemente inofensiva pra alguns, é um cliché nocivo, uma péssima escolha de palavras com consequências bem mais nefastas do que se pensa. 

Você acha que fez algo especial e vem a opinião alheia e te diz que não fez mais que sua obrigação, que não foi esse sucesso que você acreditava. Caso você não esteja com sua auto-estima bem trabalhada, existe grande chance de você acreditar que de fato não fez nada além de sua obrigação. Não precisa ser só a família a dizer. Essa mesma frase poderia vir da sua namorada pra você, de um professor ou de nós mesmos falando do nosso país. 

Por um primeiro prisma, vejo alguns relacionamentos. Você muda um comportamento, faz um agrado, ou atende a um pedido do parceiro e escuta: Mas também, só porque eu pedi, não fez mais do que a obrigação. O que?! Então o fato da pessoas estar se esforçando, ter te escutado, e talvez até estar abrindo mão conscientemente de uma posição própria pra tentar harmonizar a relação não é mais do que a obrigação? 

Uma segunda perspectiva é como professor. Percebo que a tendência geral é muito mais no que não sabemos do que no que sabemos. Alguns alunos, insistem em pedir que eu corrija e aponte erros na hora, o que é um erro. ha-ha-ha. Fazer este tipo de correção imediata, a técnica chamada "correction on the spot", consiste em corrigir o aluno assim que ele comete o erro, tipo criança bota a mão no bolo toma um tapão na hora. Eis mais um exemplo do foco no erro. Não é a toa que nos níveis básicos, quando entrevisto alunos (que já estudaram inglês em alguns cursos) sempre escuto : Não sei falar nada. Faço 10 perguntas básicas e a pessoa entende e responde todas. Como é? Acho que temos um erro no foco ae, minha querida. Sim, você ainda não sabe debater sobre pensamentos filosóficos, mas dizer que você fala NADA, é um erro grave de julgamento ( sem querer focar no errado, certo?), é só a ponta do iceberg.

No Brasil não tem iceberg, mas tem essa epidemía de nãofezmaidoqueaobrigaçãozite danada, uma inflamação no cérebro que te faz acreditar que tudo é sempre muito pouco, que ninguém reforça a qualidade, o elogio, o acerto, e que bota o foco quase todo no aspecto negativo, no erro, na falha.

Por um terceiro aspecto, nossa visão do nosso país. Temos muitos governantes de merda, e ainda tem muita coisa absurda e errada por aqui, ok, mas não tem uma coisita dando certo no Brasil? Porque nunca vi uma pessoa postando em uma rede social que os indicadores econômicos, de distribuição de renda, índices de analfabetismo, estão melhores do que no passado. Compartilhar vitórias não dá muito número de curtidas? Ou talvez o pensamento seja isso não é mais do que a obrigação?

Quando morei em Nova Iorque, pude perceber essa questão da auto-estima e do foco no sucesso levado a um outro extremo. Muitos americanos são erroneamente considerados arrogantes, porque acham, (e dizem) que são bons em alguma coisa. Quando são mesmo. O perigo é que existe uma linha muito tênue entre exaltar algo de bom em você mesmo e a arrogância de se achar muito-foda-cago-na-sua-cabeça.

Uma coisa sensacional, espetacular e linda de morar fora é que você tem a oportunidade de ver seu país de fora, com um outro olhar, e logicamente o país onde você é de fato um extrangeiro também. Nos EUA pude ver como nós brasileiros temos   baixa auto-estima como nação, como a gente valoriza muito mais nossos erros e falhas. Essa ode ao erro vai desde a nossa educação e forma de ensinar, até os jornais, rodas de bar, redes socais. 

Ainda nos USA, também pude ver que essa máquina toda de All American Pride, tem como consequência desastrosa muitas vezes uma auto-estima fake e elevada à décima potência, baseada em uma lavagem cerebral da escola ou dos noticiários que os faz acreditar que são o cheddar do mundo, aí sim é o famoso estereótipo do All American Arrogance. Percebi que esse modelo de auto-punhetagem sim reforça mais o lado positivo das coisas, o êxito, mas traz uma consequência nociva: a uniformização da definição de sucesso.

Não se engane, dei exemplo dos EUA, mas a o sucesso também usa uniforme aqui. Todo esse papo da opinião de outrem, de não fez mais que a obrigação, tem influência na questão sucesso: na relação, no trabalho, na escola,  na vida. Inventaram notas, medidas, fama, bens , estatus, Ferraris e contas bancárias, e  criaram relações dessas coisas com sucesso, como se fosse mensurável, definido e rígido. Ser bem sucedido, ser um sucesso em algo, significa na esmagadora maioria das vezes atingir as metas que alguém inventou pra você pessoalmente, e pra você brasileiro.

O irônico é que já vi diversas vezes um brasileiro puto com um gringo que fala que isso ou aquilo no Brasil não presta. Se não é brasileiro não pode? E você esperava o que? Se nós mesmos estamos sempre com o foco no que deu errado?

Não se trata de fazer vista grossa e não falar dos absurdos que acontecem aqui, mas de mudar o olhar sobre eles, e por outro prisma, exaltar e reforçar mais o que fazemos de bom, sem cair no extremo do exemplo americano. Sinto que muito da nossa auto-crítica de brasileiro, é uma forma de se proteger: vamos exaltar nossa merda, porque se alguém vier criticar dói um pouquinho menos; vamos estabelecer padrões internacionais de sucesso inatingíveis pra gente poder pra sempre reclamar e criticar os governos! Já deveríamos ter passado dessa fase.

Eu passei dessa fase. Penso que como brasileiros e como seres humanos, deveríamos mudar um pouco nosso foco. Que tal usar a mesma força que a gente critica o que tá errado pra exaltar as nossas vitórias?

Sem falsa modéstia,  não achei esse texto espetacular, mas neste ponto, eu tenho que dizer que foi um sucesso sim, e concluindo, sinto como brasileiro e como humano que fiz muito além da minha obrigação.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A espontaneidade da transformação: porque e como escrevo





espontaneidade. vai tomar no cú, Patrícia! espontaneidade é fundamental. desculpa a agressividade, mas é que qdo pensei em espontaneidade pensei tb em escrever a primeira coisa que viesse a minha cabeça e isso foi: "vai tomar no cú, Patrícia!" se trata de um raiva incubada dentro de mim por algumas situações mal resolvidas com minha namorada que domingo, qdo esse texto for publicado, certamente vai ler, mas não sei se na condição de ex, ou de atual, não sei o que vai acontecer. tb mto certamente o fato de eu começar um texto mandando ela ir tomar no cú, não deve gerar uma resposta do tipo: "nossa, adorei a referência!" mas isso já será outra briga,  outro texto, outro contexto,  com ou sem texto, será outro momento.

o momento. escrever tb se trata do momento. é impossível escrever sem ser afetado pela discussão com a namorada, a direção da peça, a morte do pai, a escolha do distanciamento de um antigo amigo. quem leu meus 4 últimos textos respectivamente, pode perceber. ou talvez não, mas aí a burrice é sua que não percebeu... enfim, o momento.
pode ser que vc não ache q o mundo te afeta, ou não afeta o que vc escreve, mas escrever assim, como uma datilógrafa que digita mas não escreve, não tem nenhum sentido pra mim e vai contra o meu principio inicial. espontaneidade. o que eu escrevo só faz sentido pra mim, se eu me enxergo ali, se eu estou ali. senão o texto vira uma reunião de palavras bem escolhidas pra fazer uma obra linda e super bem escrita, mas que não sou eu, não é minha voz, não sou eu puto com a porra da minha namorada que me enche a porra do saco caralho!

daí minha implicância com poema. pelo menos o que me parece a forma tradicional de escrever um poema é escolher cuidadosamente as palavras e seus lugares. não que isso não possa ter sentimento, não que isso não possa ser vc e não que eu nunca tenha escrito assim...  chato pra caralho. só isso. tanto ler como criar.  é difícil pra mim colocar nisso espontaneidade. me acho pedante qdo escrevo assim. Fernando Pessoa, qdo ele não vem com aquelas rimas escrotas ou poemas de 7 páginas, eu consigo entender e acho legal. mas em geral nunca entendi bem. talvez eu seja burro demais pra poesia. foda-se tb. em geral acho chato pra porra.

("pra porra" e outros palavrões jamais estariam nesse texto se 3 dos meus amigos mais próximos no MOMENTO, camilo lobo, gabriel pardal e júlio reis, não fossem baianos e se eu não estivesse puto com minha namorada e se eu não tivesse ESPONTANEIDADE pra vomitar isso aqui.)

talvez escrever um poema ( na minha cabeça: chato, chato, chato) seja como escrever um roteiro e ou uma peça. exige técnica, estrutura. contar uma história  no cinema ou no teatro requer técnica e princípios, mesmo que seja pra quebrar os princípios e subverter a técnica. transformar uma idéia em alguma coisa, transformar alguma coisa em alguma outra coisa. transformar.

uma idéia pode se transformar em qualquer coisa: um roteiro, uma música, um quadro, um poema (chato, chato). depende da idéia, da sua habilidade e disposição pra tal. vejo ser artista como isso. essa coisa de transformar o que me dói ou me incomoda em alguma outra coisa. um cliché verdadeiro é que a verdadeira transformação tem que vir de vc, tem que ser espontânea. outro cliché, que diz que a arte é transformadora, faz todo sentido pra mim. transformar minha indignação com a burocracia do serviço público em uma sketch, transformar minha irritação com a superficialidade e falsidade de mta gente do meio do teatro em uma peça, transformar a minha raiva da minha namorada lá no início em um texto que termina assim:
Patrícia, vamos conversar? 
Eu ainda te amo.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Once in a Lifetime

Craig David. Once in a Lifetime. eu nem sabia o que significava esse título. mto menos pensava que estava vivendo esse título.
ouvi essa música agora que me fez quase sentir o cheiro e a sensação do ar frio cortante na minha cara em uma noite do inverno de 2002 em um carro conversível de capota aberta ouvindo essa mesma música com meu ex-cunhado vendo o Chrysler Building e outros prédios gigantes iluminados de NY na Lexington Avenue.



numa época em que as coisas não eram assim tão registradas com a facilidade de um celular no bolso, pronto pra tirar uma foto, fazer um video, resta minha memória. que é falha. fragmentos de um ano que vivi em NY. sinto saudade daquele frio detestável na minha cara. momento sem igual. literalmente sem igual. um ano que eu nao sabia que seria um ano. a idéia era ir. voltar nao sabia quando. talvez jamais. por isso do choro dos meus amigos e meu na despedida no aeroporto.
e por isso do meu choro em forma de texto agora.
o que foi jamais volta.

sou um saudosista. meu saudosismo é tão extremo que me dói pensar que qualquer algum momento específico que sinto saudade jamais vai ser revivido. parecido? talvez. igual? de novo? jamais. nao se trata de ser pessimista ou de ser depressivo

(apesar de que eu tenho 5 dos 9 sintomas que caracterizam depressão, apesar de ser esta pessoa incrivelmente carismática e superbamente bem humorada que vc sabe, não sabe?)

e achar que nao vou viver mais momentos tipo um café da manhã no IHOP com minha família que foi me visitar lá e meu sobrinho com 2 anos cantando "O Carla ", sucesso do Brasil de um tal LS Jack que eu nunca tinha ouvido falar.

(apesar de que sim vou viver momentos do tipo, ou mto possivelmente até melhores, esse que acabei de falar nao vou viver de novo)

minha tristeza tb reside no fato de que pouco registro dessas histórias eu tenho. vagas lembranças, imagens, poucas fotos, alguns cheiros, um ou dois sabores. nada concreto. como se fotos fossem mais concretas. não são e nem acho isso. fotos pra tentar guardar algum momento são um desastre. fotos desse tipo são apenas uma ilusão de que a gente pode parar o tempo, salvar um momento especial, congelar aquela sensação, repetir quantas vezes a gente quiser. é a história de cruzar o rio: você só tem 18 anos em NY uma vez. NY só é NY através dos seus olhos de 18 anos uma vez.
revisitar aquele lugar, aquela vista, aquele momento, aquele cheiro, aquela sensação do vento cortante frio de NY na minha cara... jamais.

nao é que eu nao viva o presente. to escrevendo aqui. agora. agora sou só isso que escrevo e adoro estar aqui presente. mas quando lembro de algo que JAMAIS viverei de novo é como entender que a vida pode ser isso. só uma mesmo. sem replay, sem ensaio, uma apresentação da peça, uma vez
desses pontos de virada, desses "climaxes"(nao sei o plural dessa porra) como cada momento desses.
só um mesmo.
como o detestável vento frio na cara em NY quando se tem 18 anos.