quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Muito além de um pau duro

Vou começar mandando uma real pra Lucy e pro João, pra você gatona que lê e pra você meu amigo hétero, machão que tem pau: nós homens não somos nosso pau duro e um relacionamento saudável vai muito além de pau duro.


A Lucy tem 46 anos. Desde os 25 ela malha religiosamente. Ela estava cansada de malhar e então tinha resolvido parar. Só que uma semana depois ela ficou insegura e voltou. É que a Lucy e o "João" acham que o grande valor dela é o corpão dela. João também tem 40 e tal, é o peguete da Lucy. Eles só transam de luz apagada. É que o João implica com as "pelancas" da Lucy e com o fato dela não ter aquela lubrificação enxarcada inigualável de garota de 18 anos. Ao mesmo tempo ela não aceita o fato do João as vezes não querer transar porque alega que se o pau dele não tá duro é porque tem alguma coisa errada com o corpo dela. Senão é com ela então é com ele e o pau dele. Senão com a relação. João por sua vez, não admite jamais não ficar de pau duro. E não, não poderia ser só falta de desejo de um dia, e não, não poderia ser porque eles são um casal único em uma relação única com necessidades únicas. Não. Não desejar é inaceitável. O pau sempre tem que estar duro.

Se você, mulher, heterosexual espera que o mundo seja menos machista, que os homens sejam menos babacas e que você não seja sempre vista como uma pedaço de carne a ser jantado, comece por não reforçar comportamentos que botem o pau duro como supra sumo do poder na relação homem x mulher. Você pode achar a história da Lucy meio machista e bizarra, mas acredite que você também tem ou já teve estes comportamentos.

Tinha começado a ficar com ela devia ter uma semana. Convidei pra dormir na minha casa porque ficou tarde e ela morava bem longe. Ela hesitou. É pra dormir mesmo - eu garanti - tô querendo te ajudar, não é tática barata dissimulada pra te comer - sendo franco, brinquei. Ela riu e aceitou. A gente se beijou, eu não tentei nada e dormi. Não tentei não só porque estava exausto, mas porque não tava afim mesmo e garanti que era só pra dormir, fui literal em cumprir o que disse. De manhã, ela me olha nos olhos, faz um ar sério e grave de quem vai soltar uma bomba e lança: Franco, posso te falar uma coisa? Eu acho que voce é gay. Eu ri muito.

Gostaria de entender: porque se você sai com uma mulher existe a obrigação tácita de ter que comer ela caso ela queira dar? Funciona assim pras mulheres? Hum olha o abdomen dessa cara, humm ele falou que tenho uma bunda gostosa e quer me comer, hummm o pedreiro tá de pau duro me sarrando no metro = fico muito molhada, quero muito dar pra ele. Se eu não quiser dar é porque ou eu sou lésbica ou tenho algum problema de libido ou alguma disfunção sexual. A mulher se interessa por vários outros aspectos no homem e daí porque é tão surreal que o interesse sexual de alguns homens não seja só pautado nessa supervalorização do corpo, do sexo e no fato da mulher querer dar?

Por muitos anos eu não era consciente dos porquês subliminares dos meus atos e sofria essa coerção sem nem perceber. Com uma mulher, não tive a consciência de também respeitar meu tempo e minhas vontades, o resultado: fiquei super ansioso pra que acontecesse e na primeira vez que tivemos oportunidade esquisita de transar, e sob pressão, eu comecei a transa e brochei. Na segunda também. 

Em outra experiência agi diferente. Já tinha acontecido alguns amassos além de beijo, mas não tínhamos transado. Não tive a vontade e o entusiasmo de querer me articular pra que isso acontecesse rápido, na minha cabeça iria acontecer naturalmente, ela me interessava além de só sexo, o interesse sexual estava acumulando, quase tântrico, eu não estava na seca, nem ansioso pra que acontecesse. Ela sim. Depois me contou que o amigo gay dela garantiu que eu só podia ter micropenia e tava com medo de transar por isso. Ela não concordou porque já tinha me apalpado, mas até a gente transar achava que eu deveria ter algum complexo, ou defeito físico,  problema, ou ser gay.

As minhas melhores transas, foram sempre com pessoas que eu já conhecia bem e tinha bastante intimidade. Não falo isso com moralismo, não sou um ortodoxo "reaça", mas acho bem bizarra essa nossa enorme ansiedade disfarçada em comportamento modernoso e liberal de ficar de pau duro e transar rápido.

Não por acaso que o genérico do viagra, um remédio que tecnicamente seria para os velhinhos que não têm mais ereção poderem fazer sexo, é o terceiro mais vendido do Brasil. Outro campeão de vendas é o rivotril.  Esses dados não são meras coincidências e reforçam: Estamos ansiosos por paus duros. Estamos cada vez mais imediatistas, e parece muito mais fácil ser gado e fazer como todo mundo faz, transar rápido e partir pra próxima, ter intimidade sem conhecer de verdade a intimidade,  resolver seus problemas de ansiedade com pílulas do que ficar fazendo 3 anos de terapia ou qualquer outra forma de auto-conhecimento. Parece mais fácil, a conta vem depois.

Tenho vários conhecidos que criaram uma dependência psicológica de remédio pra ficar de pau duro: sem pelo menos uma meiota de um remédio azulzinho desses, eles ficam inseguros e brocham. São vários, não um ou dois. Alguns também dizem que na primeira transa sempre tomam um viagra pra não correr risco de não rolar pau duro ou de não "fazer bonito".

Mesmo na vida de casado existe uma super-valorização do pau duro e do ato de transar. Já ouvi de alguns amigos: Porra, eu trabalhei muito essa semana, só transei 2 vezes, amanhã tenho que transar sem falta. E de amiga mulher: Não transamos hoje, temos que transar amanhã sem falta porque senão ele vai ficar com tesão acumulado e pode se interessar por alguém nesse fim de semana que vai passar sozinho. 

A gente passa 1/3 da nossa vida dormindo então teoricamente seria mais importante dormir bem com seu potencial parceiro, depois do sexo, do que o sexo em si. Ironias a parte, acho uma vida sexual ativa e gostosa ótima pra um relacionamento saudável, mas não dá pra existir obrigatoriedade de transar. Também não vejo nada surreal num casal ter uma relação tão foda que o sexo tenha um papel secundário. É um erro pensar que todo casal em uma relação feliz e saudável desfruta de um padrão único de atividade sexual. 

No passado falar abertamente de sexo era mais tabu, mas hoje temos mais e mais informação, o que deveria ser bom, mas acaba desenvolvendo nossa ansiedade de ser um casal "normal" que transa na média nacional aceitável. A internet está lotada de listas e artigos te dizendo as vantagens de meter muito, chegando ao ponto de dizer que você tem que transar mais! Não é a toa que o pau duro seja tão valorizado e a gente se ache muito "anormal" quando porque, por alguma, ou várias razões, a gente transa com menos frequência na relação, pensa logo que tem algo errado.


E esse é o paradoxo central com sexo e relações, de acordo com Barry McCarthy, um professor na American University, terapeuta sexual e de relacionamentos. Quando um casamento ou relação é saudável, o sexo geralmente tem um papel relativamente secundário. Mas quando existem problemas sexuais a relação degringola e o sexo rapidamente se torna uma preocupação devastadora acima de todo o resto, se o pau não tá duro ou a buça não tá molhada, fudeu... Mesmo sem aquela foda.

Vamos deixar essa bobeira de pau duro pra lá, vamos voltar a falar de amor. Lembra do João e da Lucy lá do início do texto? Então, há um tempo atrás eles tavam transando e o João bebeu e depois tomou dois viagras seguidos pra ficar de pau bem duro pra comer a Lucy. João teve um infarto e morreu. A Lucy, apesar do baque inicial, hoje, quase 9 meses depois, já tá bem feliz. Lucy conheceu o "Dildo". Dildo além de bem menos crítico que o João com as pelancas dela, deseja e respeita Lucy como ninguém. Sempre que Lucy quer, Dildo também quer. Dildo tá sempre duro. Dildo é um vibrador.

Meu nome é Dildo.


A sociedade está na cama com todos nós. Se todo mundo faz algo igual ninguém precisa pensar. Se chega o viadinho (no sentido literal histórico de ser viado especialmente) do Franco, ou algum outro viadinho consciente das escolhas dele e não segue um determinado comportamento padrão, eles tem que ter algum problema, porque senão eu, mais um gado da sociedade, preciso pensar. Ninguém quer pensar. Dá muito trabalho. Quem o Franco ou qualquer homem pensa que é pra sair com uma mulher e não querer comer ela rápido? Tá errado! Só pode ser viado porque macho que é macho fica sempre de pau duro e come qualquer buraco quente que esteja querendo ser catucado. Desculpa ae, se você é uma mulher que quis me dar e não te comi, sabe o que é? É que não ganhei meu pau no bingo e eu sou bem mais que meu pau duro.


sábado, 6 de dezembro de 2014

Filho feio não tem pai. Nem mãe.

Feiura. 

Defeito genético? Castigo de Deus? Ou um baita de uma azar desgraçado mesmo? 

Tem gente que vive do mercado da feiura, mas deve ser uma merda ser feio. Ser bonito é subjetivo, graças a Deus eu sou um dos caras mais lindos do Brasil, da America Latina e quiçá do mundo hoje. Mas já fui gordo. Gordo é sempre considerado feio. Seja gordo por um dia e você vai entender.

Um bichinho que eu comia muito enquanto balofo era lagosta, e se tem uma coisa que é certa é que a lagosta também não é reconhecida por ser um bicho bonito. Lagosta é um bicho feio. É uma barata do mar, vermelha, cheia de pelinhos grotescos, antenas e com um exoesqueleto duro e cheio de calombos. É caríssima, é uma iguaria, tem que ser morta ao ser jogada viva dentro de água escaldante, mas é uma delícia mesmo assim.


Mesmo pagando de gatona as lagostas são feias pra caralho. Merecem morrer.


Se tem uma coisa que também é certa é que coelho é reconhecido por ser um bicho muito bonitinho. Coelho é um bicho fofo né? Aqui em São Paulo tem um lugar incrível: o Le Lapin Tué. Restaurante francês especializado em coelho. Tem coelho frito, assado, rechado, estrogonofe de coelho, pizza de coelho, pastel de coelho, espetinho de coração de coelho e o famoso petit gateu de coelho. A coisa em comum de todas as receitas é que eles tem uma técnica para garantir a carne desmanchando na boca. Eles usam o mesmo processo da lagosta: pegam o coelho e jogam ele vivo na água escaldante, mas é uma delícia do mesmo jeito.


Essa lagosta vc tb jogaria viva num panelão de água fervendo?
Esse restaurante não existe e a imagem do coelho vivo na água fervendo choca muito mais não só por fatores culturais, meus caros, mas por um fato elementar: o coelho é bonito. Lagosta é morta cruelmente,  sem pena, e com rara reflexão sobre seu sofrimento, sabe por que? Porque ela é feia.

Mesmo que seja uma forma rudimentar e tosca de demonstrar sofrimento a lagosta sofre. Encoste o rabinho dela na água a 90 graus celcius e você vai ver que se ela fosse burra e com sistema nervoso primitivo, uma idiota que não sente nada, como argumenta-se convenientemente, ela não iría desesperadamente tentar fugir e se agarrar nas bordas como faz. Um coelho gritaría e veríamos nos seus olhos seu sofrimento.  Ainda assim: de onde vem a idéia de que uma forma primitiva e pouco articulada de sofrimento é menos digna de consideração do que uma forma "evouluida" de sofrimento? Existem algumas razões, mas vou me ater a meu ponto aqui: o sofrimento da lagosta é menos considerado porque a lagosta é feia. 


O ponto aqui não é o sofrimento animal. Esse não é um texto ecochato, vegan ortodoxo que quer defender não comer proteína e  sofrimento animal. Penso que a gente tem sim que considerar a lagosta. Só que pra ser bem franco (sem trocadilho), saber do sofrimento dos animais,  não diminuiu meu prazer em comer um filé com queijo do Alfa Bar ou do Polis Sucos por anos. Na nossa alienação proposital e conveniente do processo de abatimento do boi até ele virar bife e no prazer em comer do espírito do gordo que ainda vive em mim, eu não estava pensando no processo e nos maltratos que aconteceram enquanto eu me lambuzava comendo aquele filé macio com queijo derretido. Eu raramente como carne em geral hoje, mas pela "simples" razão "egoísta", e não menos positiva, de que me sinto leve e bem, e de tabela imagino que estou fazendo bem pro mundo e pros animais, sejam eles bonitos como o coelho ou feios como a lagosta, o ponto aqui é a beleza, ou melhor, a falta dela.


Muita gente tem pena de comer coelho, mas rói até o ossinho da galinha, come espetos de coração desse ser que é feio pra cacete. Lógico que existem muitos fatores culturais, na culinária em especial, mas vou além da culinária e cultura. 
Tão certo quanto o fato que galinha não tem 3 corações, (como minha mãe uma vez me ludibriou quando bem pequeno concluí que cada coração vinha de uma galinha) os seres belos inspiram mais compaixão.

Com que frequência você vê alguém matando e estraçalhando uma joaninha? Já um besouro cascudo e feio... Borboletas coloridas, lindas, "ah não mata tadinha!" Já uma mariposa acinzentada e peluda não é tão difícil de ser estraçalhada. Baratas são nojentas por várias razões, mas as vezes elas estão quietas, na delas. Mata, pisa nela! Mosquito? Mosca? Frita com raquetinha de choque. Feiura não inspira compaixão. Filho feio não tem pai.(https://www.youtube.com/watch?v=lHnNlneEf3Q) Nem mãe. 

E o irônico é que diz-se hoje que nossos critérios de beleza dentre outros fatores, são baseados na simetria que por sua vez teria alguma conexão com genes mais interessantes para procriação e todo esse blablabla que já se falou.  Mas o fato é que os padrões de beleza já foram outros como no renascimento e, na real, são bem relativos. Não precisamos ir até a China, só até Secretário já basta. 

Eu era gordo até meus 16 anos e gordo não é frequentemente visto como exemplo de beleza nos padrões de hoje, em Secretário é. M
inha família tinha um sítio em Secretário, que deve ficar só a umas 2 horas de distância do Rio, lá no sítio em especial eu não curtia ser gordo. Não só porque era difícil pacas sair da piscina por onde não tinha escada, não só porque uma coxa roçava na outra quando eu jogava futebol e eu ficava assado, mas em especial por ser um gordo adolescente, e por causa da caseira do sítio. A caseira, a Beatriz, toda vez que me via enchia a boca achando que estava sendo lisonjeira: "Nossa olha que menino bonito! Olha esses "braço" roliço! Essas "bochecha" gorda, esse barrigão gordo!". Como ela tinha 16 filhos, a comida era muito racionada e os filhos delas eram bem magros, logo, ela via a gordura como beleza. Eu ficava muito puto com a Beatriz, mas desde esses anos comecei a refletir sobre isso do que é considerado belo, feio e as suas consequências.

Essa beleza que é uma benção, é como uma moeda de troca, é ostentada, valorizada e vangloriada, quando não há mérito nenhum nela,
 seja presente de Deus ou dos genes, beleza é uma característica inata e pré-determinada tanto quanto a feiura. Por mais que os porquês sejam bem contestáveis, dá pra argumentar que uma beleza de se enquadrar nos padrões estéticos de hoje tem algum "mérito" porque é necessário fazer exercício, dieta, cirurgia, enfim, usar qualquer tipo de artifício, loucura ou esforço e perseverança pra atingi-la. E qual é o mérito de quem já nasce lindo? E então porque se valoriza tanto o ser belo?


Essa loucura de valorizar a beleza como qualidade e vantagem chega a pontos estratosféricos. Um estudo da Universidade do Estado de Michigan, Why Beauty Matters, concluiu que os profissionais vistos como feios são tratados de forma muito pior pelos colegas, quando comparados com aqueles considerados bonitos, mesmo após serem levados em consideração outros fatores como gênero, idade e tempo de trabalho na empresa. Em outro teste a produtividade dos humanos considerados bonitos foi a mesma que dos "comuns", mas os bonitões mostraram muito mais confiança, pela constante validação e aprovação das suas belezas. E ainda em um outro parte do estudo, quando os empregadores avaliaram apenas o currículo dos candidatos, a aparência física não influenciou a estimativa. Mas, quando fizeram entrevistas cara-a-cara e conversas telefônicas,  resultados positivos para os mais belos, obviamente.

A beleza exerce um poder de empatia, de coerção e de encantamento que fica acima do nosso raciocínio lógico. Dificilmente alguém olharia para um bonitão de terno e pensaria: "Vou atravessar pra outra calçada que esse cara vai me assaltar."


A beleza também não tem relação alguma com ser burro nem inteligente, mas ela emburrece a gente através do encantamento que pode exercer. Como no caso dos prefeitos idiotas que me marcou, justo pelo uso da beleza que encanta emburrecendo. 

Eu mesmo que me considero inteligente quantas vezes fiquei burro, sem discernimento nem clareza de raciocínio diante da beleza. Lembro de uma vez aos meus 16 anos que uma vendedora linda, estilo top model, de olhos azuis muito claros, decote com peito grande e firme em destaque, sorriso fácil e cabelo encaracolado loiro de Gisele, apelou dizendo que eu estava "muito gato" com uma calça. Eu até percebi qual era a dela, mas fiquei quase que retardado com aquelas palavras vindas de uma deusa daquelas, eu sorria e acreditava, mesmo sabendo que era uma técnica de venda descarada. Levei uma calça de R$250 que mal entrava nas minhas pernas gordas assadas.

Saí da loja, ainda gordo e feio, MAS feliz. Veja que até na comunicação e na linguagem fica evidente nossa super valorização da beleza. Eu escrevi esse texto. Suponhamos que você leu e achou que eu escrevo bem. Você olha minha foto, me acha bonito: Nossa ele é bonito E até que escreve bem. Você olha minha foto, me acha feio: Nossa ele é feio, MAS até que escreve bem.


sábado, 15 de novembro de 2014

Um texto pra quando a gente estava junto




Faço essa mensagem pública porque entendi o quanto teria sido importante ter exposto minha admiração e sentimentos por vc. Como não fiz enquanto estávamos juntos, faço agora, como forma de agradecimento e como uma mensagem de aniversário que espero que chegue até vc, Patrícia.


Faz um ano e meio que a gente terminou. Na época achei que tinha deixado de te amar, mas a verdade é que nao deixei. Nunca vou deixar. 

Apesar do que acabei de escrever esse não é um texto pra te propor de voltarmos a ficar juntos, ou pra te prender a mim ou deixar alguma porta aberta pro futuro. Aceito e acolho com muita serenidade o fato que optamos por não ficar juntos. Assim como aceito e entendo o fato que eu vou pra sempre te amar pela pessoa que voce é, estando ao meu lado ou não, por tudo que você significou e participou na minha história, porque com você eu aprendi a diferença entre o amor romântico e cliche e o amor genuíno. 

Digo isso porque através dos nossos erros como casal eu percebi a diferença entre esse apego que chamam de amor e um amor ao meu ver mais saudável e verdadeiro. Entendi que te amo porque quero que você exista independente de mim e que se sinta feliz e plena, independente de mim. Eu nao quero que você me complete, me faça feliz. Te amo e quero que vc seja feliz.

Esse é o texto que voce tanto merece por ser essa mulher linda que é, um texto que você queria e que eu nunca escrevi enquanto estávamos juntos.

Voce ficou chateada porque leu textos que escrevi sobre meu encantamento por outras mulheres depois que a gente terminou. Mas se pude escrever esses textos pra elas, foi só depois desses 3 anos que tanto observei, apreciei  e aprendi com a mulher que você é, e toda a sua beleza que é tão feminina.

Foi através de vc que pude perceber a beleza profunda da nuca feminina, porque a sua nuca, com aqueles cabelinhos pretos que ficam pra baixo mesmo quando vc usa rabo de cavalo, foi onde eu mais me me perdi na hora de buscar o sono e onde eu mais me encontrei e me senti feliz acordando do seu lado em tantas manhãs que te deixei dormindo e fui trabalhar. Sempre com aquela vontade de ficar mais, aquela vontade de ficar cheirando e beijando pra sempre sua nuca com aquele cheirinho delicioso amanteigado e único de suor matinal.

Se hoje vejo tanta beleza em outros sorrisos é porque aprendi e me encantei pelo seu por esses 3 anos. Escolhi seus dentes de coelho, de xuxa, que são tortos na medida perfeita pra te deixar charmosa até no que dizem imperfeição. Além disso vc tem as covinhas mais lindas do universo das covas das galáxias e quando vc ri , eu me pergunto se tem como eu pro resto da minha vida nao me sentir encantado ao ver este sorriso.


A forma como vc vibra os olhos e olha pro nada quando esta tentando raciocinar é de um charme ímpar, um charme despretensioso de quem não esté tentando ser charmosa, e por isso mesmo acaba sendo muito.
O como vc faz um ar grave com as sombrancelhas quando vai ler com atencao.
Obrigado por tudo que aprendi com vc.




Esse seu mesmo charme é evidente no jeito tão característico e delicado como vc caminha, quase saltitando, com sua postura ereta e costas largas que parecem de uma nadadora.
O seu nariz pontudinho perfeito, em especial visto de perfil pela esquerda, e o seu T.O.C. encantador e que tanto me divertiu de nao poder encostar no seu nariz porque senão poderia deformá-lo.

O seu quadrilátero ( que pra quem nao sabe é a zona quadrada que se encontra na região abaixo da orelha) e toda a magia de cheirar essa região e esquecer do mundo por um instante.

Patricia, eu espero que este texto chegue até vc e espero muito que vc alcance o que almeja, que seja feliz com alguém admirável. Não falo isso do lugar cliché e batido desta frase, mas com a vibração e pensamento positivo pra que vc seja mesmo. Mesmo que seja atrasado, te agradeço por tudo que voce me ensinou e que infelizmente só com essa perspectiva da distância de vc, e de nós, eu pude aprender.
Se hoje entendo meu encantamento pelas mulheres,  minha admiração por toda a beleza que existe em ser mulher, se hoje entendi e aprendi tudo isso, agradeço a vc.
Hoje vejo toda essa beleza nelas, mas antes delas sempre terá você.
Feliz aniversário.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O luto de um suicídio

É quase impossível que no decorrer de sua vida você não tenha que vivenciar o luto por alguém que morreu. Vivo o luto do suicídio do meu irmão, que se matou há pouco mais de um mês atrás aos 35 anos. Expor minha história mais uma vez é uma forma de transformar minha vivência desse luto em aprendizado pra mim,  e espero talvez, que de alguma forma ajude quem quer que tenha passado ou passe por isso.

Nesse um mês recebi centenas de mensagens que envolviam casos de suicídio, ou de próprias pessoas que tentaram se matar. Muitas contando histórias, fazendo perguntas, agradecendo, falando dos próprios sentimentos. Tive muitas reflexões a partir de toda essa experiência.

A primeira é que falar sobre suicídio é particularmente desafiador não só pelo trauma e pela grande surpresa, mas também pelo grande tabu que envolve o tema. Parece que, semelhante a tantas outras situações de vulnerabilidade psicológica para as quais preferimos olhar apenas em secreto, manter o silêncio funciona somente como mais uma máscara que visa esconder uma realidade de profunda dor, misturada com sentimentos de vergonha e estigma social. Não quebrar esse tabu evitando tocar no assunto em nada ajuda, pelo contrário só torna tudo muito mais difícil.

No meu texto anterior falei da depressão, uma doença grave que culmina naturalmente no suicídio quando não levada a sério e tratada. No entanto, existem vários porquês possíveis para uma pessoa se matar, mas esse não é o ponto. O ponto é que vale perguntar o quanto quisermos,  falar até a exaustão, investigar e tentar entender se acharmos necessário, mas é burrice se entristecer ou ficar irritado e frustrado por não encontrar respostas satisfatórias, ou não encontrar resposta alguma como ocorre tantas vezes. Te deixaria mais feliz se encontrasse uma carta da pessoa e soubesse que ele se matou porque estava cansada de ver sua cara? Ou porque ela estava com uma dívida secreta enorme? Os porquês mais íntimos são quase sempre impossíveis de saber e eles não trarão a pessoa de volta nem preencherão a ausência. Buscar porquês é uma espécie de auto-flagelação, é quase sempre tentar se enganar e imaginar que poderia ter percebido mudanças ou feito algo para evitar o suicídio.


Ouvindo vários relatos e conversando com especialistas ficou evidente: as mudanças são muito sutis e até médicos especializados nesse campo tem dificuldade de diagnosticar mudanças de comportamento que precedem o suicídio. E pra dificultar, a maioria das pessoas que decidem se matar, raramente o fazem num impulso, muitas planejam quando, o método e o local e fazem de tudo para disfarçar pois sabem que as pessoas que as rodeiam tentariam impedir.
Dentre alguns casos, ouvi um de uma pessoa que se matou a caminho de ser internada em uma clínica para tratar da depressão. Falou que ia em casa pegar uma roupa rapidinho e se enforcou. Num outro caso, o homem falou que ia viajar, arrumou a mala, e no primeiro momento que pode ficar sozinho se enforcou no suporte da Tv no quarto do casal com a esposa esperando na cozinha. Uma outra, já em tratamento e com a família de olho, falou que ia ao banheiro, se trancou e deu um tiro na cabeça. Mesmo assim, é extremamente recorrente se iludir e se causar sofrimento pensando que poderia ter feito algo. Não poderia. Afinal, se você realmente acreditasse que alguém que você conhece planejava se matar, você deixaria? E voce sabia e acreditava de fato que a pessoa era capaz de se suicidar antes do ocorrido?
O luto de um suicídio parece que dói mais que uma morte "natural",  porque uma outra tendência recorrente é imaginar que foi um coisa contra voce, em outras palavras, como se a sua existência ou de outras pessoas importantes não fizessem diferença pra quem se matou querer continuar viva. Uma interpretação equivocada, porque no caso de depressão profunda o estado de sofrimento e falta de vontade de viver são tão grandes que engolem qualquer outra vontade. Não tem nada a ver com o outro, é um sentimento solipsista, mas não egoísta porque não tem ego, é como uma ausência muito grande, não tem um eu que se conecta com nada, ganhar na loteria ou pegar sua mulher na cama com outro é indiferente, é um vazio avassalador. É bem difícil pra quem não sofre de depressão e tem a mente sadia conseguir vislumbrar o que alguém que se matou sentiu.
Bem mais intensamente que nas mortes "naturais" o suicídio pode causar muito sofrimento a todos remotamente conectados ao suicida pelos fatores que mencionei. Ajuda a dar mais leveza pesquisar sobre o tema, quebrar o tabu, escrever, ler sobre, entender que há muitas visões diferentes em diversas culturas (e até só na nossa mesmo) sobre a morte e o suicídio. Só pra citar uma rapidamente, aprendi que em algumas "tribos" da Malasia o suicídio é prática admirada. Os suicidas são chamados de heróis, pela coragem, são considerados escolhidos. Eles dizem que a atitude de sacrifício deles traz mais união, amor e vida para a tribo.
Também pode ajudar a se sentir melhor conhecer pessoas que passaram por isso,  relembrar que você não é o único a viver essa situação e uma forma boa de atenuar um sentimento muito recorrente de enorme solidão que costuma surgir em quem perde alguém assim. Digo "pode ser que " e "talvez" porque esse é o ponto central de um luto: cada um tem a sua forma de sentir e lidar com a ausência.
A morte antes de assustadora ou incompreensível, significa a ausência física que a pessoa que se vai bruscamente deixa, é impreenchível, porque só aquela pessoa com todas as suas idiossincrasias , mesmo as ruins, pode ocupar aquele lugar. No ato de existir, todos somos insubstituíveis. Diante da aceitação deste fato, a nossa mente nos leva a vários destinos.
Alguns caminhos mentais são mais tortuosos, outros mais fáceis. Parece bem fácil morrer junto, mesmo sem se matar, mas a real é a mesma de quem decidiu se matar: você é quem escolhe. A gente só não tem escolha diante do nosso livre-arbítrio de ter que escolher como lidamos com a ausência da pessoa. A dor e o sofrimento que vem de uma perda podem ser grandes vilões que destroem nossa vida... Ou grandes professores que te fazem ter mais recurso e força para lidar com as durezas da vida. O que você escolhe?
A saudade é inevitável, é um sentimento curioso e inerente ao luto, mas ela pode ser vivida com alegria, ou com dor, é um ponto de vista sobre o passado. Você pode ver como algo positivo: que bom que eu vivi esse momento com essa pessoas pra poder sentir saudade. Ou como algo horrível: que merda que nunca mais vou viver isso com essa pessoa. É sempre um gatilho, uma faísca que pode ser uma situação, objeto, palavra, som, cheiro que te faz lembrar a pessoa que não está ali. A gente chora e sofre mais pelo apego as memórias que vivemos com quem se foi, do que pela pessoa em si. Por outro lado, a dor pela certeza de um futuro que não virá diante desta ausência é só uma ilusão, um caminho mental que só causa dor. Só que o fato da pessoa estar morta ou viva não faz essa vivência ou lembrança menos ou mais vívida, e nem existem garantias que esse futuro chegaria. Fato: a saudade nunca é nossa mente no presente.
O que não nos mata nos fortalece, e o kanji de crise = perigo + oportunidade, assim, penso nessa experiência de luto como uma grande oportunidade de onde podemos sair mais fortes e mais vivos. Uma oportunidade de sorrir de novo, um sorriso que demora a vir, mas que quando vem, vem com força redobrada.












Muitas pessoas, com boas intenções aparentemente, te dizem como você tem que se sentir. Alguns te dizem pra esquecer, outros te dizem que você tem que seguir em frente, outros te dizem que você tem que sofrer, mas pouquíssimos tem a sabedoria de te dizer o mais correto: você nao "tem que" nada. Em especial se você está bem, algumas pessoas te cobram ter que sofrer. 

Me lembra a história do Estrangeiro do Camus, o protagonista é julgado culpado de um crime porque não chorou no velório da mãe. Se sua vida não está acabada porque seu irmão se matou então você não gostava dele de verdade. Se voce já está conseguindo sorrir é porque a ficha não caiu. Algumas pessoas que vivenciaram situações parecidas te dizem "ah voce ainda vai sofrer muito até os dois, três primeiros anos." Entendo que é quase que um conselho, como para que você esteja preparado, mas é totalmente sem sentido. A partir de que dia exatamente que o sofrimento acaba e é adequado poder sorrir? Quais as demonstrações de sofrimento que temos que dar para que a dor seja verdadeira e "correta"? É quase dizer: olha, esse luto pelo irmão que se matou dura no mínimo 2 anos, 3 meses, 17 dias e 12 horas, e você tem que chorar 17 litros, tá bom?

As pessoas cobram, e até a gente mesmo se cobra sofrer se não prestar atenção. Só que o sofrimento não beneficia nem glorifica ninguem, nem o morto nem nós mesmos. Independente de sua fé ou falta dela, existe alguma possibilidade da alma de quem se foi se sentir feliz, orgulhosa e honrada pelo fato de você estar na lama e miseravelmente triste? 

Se tivesse que dizer a única coisa que alguem "tem que" nesses momentos é: "temos que" sentir. Vivenciar o luto e, como todos os sentimentos, ele está sujeito às idiossincrasias de indivíduos singulares que todos somos. Não tem receita, nem certo e errado. Pode ser que voce sinta raiva, ódio, saudade, compaixao, vazio, tristeza, amor, perplexidade... Pode ser que sinta por uma semana, por 10 anos, ou pra sempre até morrer. Nesse pouco mais de um mês eu senti isso tudo e muitos outros lugares em mim mesmo que nem sei descrever.




Por último, uma das grandes dificuldades de passar por um luto deste tipo é que custamos a perceber, e depois relutamos a aceitar: o luto por nós mesmo. Mudanças tão bruscas como essas nos tornam outras pessoas, o eu antigo morre. E o não reconhecimento desse novo eu, pode ser no mínimo estranho, senão muito doloroso. Você pode sair mais forte, pode sair derrotado, pode sair revoltado, enfim, o fato é: não tem como entrar e sair neutro de um luto.

Finalmente, tenho que dizer  que é verdade, não há muito o que alguém possa dizer para consolar em momentos como esse, mas se disser conta comigo, não diga de forma piegas e leviana, porque nesse momento de fragilidade é muito mais decepcionante alguém te falar isso e quando voce pede ajuda a pessoa não comparece. Nos dias de luto que fraquejamos, a gente não precisa de textos e palavras lindas, nem de alguém que nos diga como a gente deve se sentir, a gente só precisa saber: conta comigo, estou aqui.





quarta-feira, 23 de julho de 2014

Amor grátis

Hoje eu dei uma abraço no Antonio. Uma coisa que eu não achava que conseguiria fazer, eu dei um abraço no Antonio.

Minha namorada ficou de passar na minha casa antes de ir pro trabalho, pra deixar umas coisas e disse que ia me acordar com amor. A gente briga de uma a três vezes por semana, geralmente as quintas as 21:00 ou algum outro horário de nossa escolha, de preferência bem tarde da noite. Sou irônico aqui pra deixar claro que tenho uma relação longe de perfeitinha, é bem truncada, mas quando se ama é muito amor também. Adoro ser acordado com amor. Acho que todo mundo gosta. Até o Antonio deve gostar.

Eu fiquei meio dormindo meio acordado na cama esperando, cheio de amor pra dar e receber. Ela entra no trabalho as 10 horas, quando vi já era 9:45, ouvi o barulho do elevador ainda deitado. Me levantei rápido e fui pra trás da porta pra dar um amor surpresa lateral pra minha namorada. Não era ela. Liguei, não deu pra ela ir e já estava no trabalho. Então eu decidi que tinha que fazer alguma coisa produtiva com aquele amor.

Tem uma história que eu li que fala do discípulo que foi reclamar com o mestre: “Mestre, eu tenho tentado de várias maneiras, mas não consigo falar com Deus, como faço?”, e o Mestre muito mestrosamente: “Em vez de me pedir o telefone de Deus, seria melhor você desocupar o seu telefone, porque Ele tenta ligar para você direto, mas tua linha tá sempre ocupada”. Um guru desses aí, fala que o coração é uma central telefônica. E não é o central escrota tipo a da TIM, mas uma que sempre tem linha disponível para atender quem liga, só que quem escolhe desocupar as linhas somos nós. 

A gente poderia estar aberto a dar muito mais amor do que dá. Por que a gente não distribui mais amor? De graça, sem querer nada em troca, nos dias que a gente tem pra dar. Difícil né? As pessoas dizem que acreditam no amor, mas quando você oferece amor grátis, elas desconfiam, debocham e duvidam. E se existe um lugar de incredulidade encalacrada no amor é o carnaval. 

No meu último carnaval solteiro em 2011 eu saí pintando todo mundo com um pinta cara e abrindo chakras pacas. O quarto chakra, é o chakra do coração, do amor, quando você abre o peito e abre seu chakra, rapaz, tem muito amor pra dar ali se você quiser. Pra mim começou assim, fazendo yoga, abrindo o peito e indo pro carnaval. Parece contraditório, mas não é.


Eu fazia uma brincadeira muito séria, que não era balela pra beijar 700 bocas até porque a brincadeira sempre repelia as mulheres, que me achavam muito louco, apesar de eu estar bem são do que estava fazendo, que era a seguinte: 

Você deixa eu te amar por 30 segundos?
Sabe quantas mulheres se deixaram amar?ha-ha

Até a quarta feira de cinzas, quando uma mulher se deixou amar.
E o mais legal da história é que essa mulher também tinha sua frase de carnaval que repelia homens. Em resposta á pergunta escrotinha "deixa eu te beijar?", ela falava: 
Depende, você vai me convidar pra almoçar amanhã? 
Sabe quantos quiseram beijar ela? ha-ha

Até que a gente se encontrou no Baixo Gávea na quarta-feira de cinzas.
-Você deixa eu te amar por 30 segundos?
-Depende, você vai me convidar pra almoçar amanhã?
A gente olhou no olho, não falou nada, se abraçou forte e se beijou gostoso. Ela é a minha namorada que ia vir me acordar hoje.

Tem um exercício que li num livro do Osho que é pra você praticar e cultivar o sentimento do amor incondicional, pelo simples fato do sentimento dentro de você, que te faz mais feliz e você irradia isso e isso se irradia e isso é bom pra todo mundo. Ele fala pra você sentar ao lado de uma pedra e ser amoroso com ela, beijar, abraçar e fazer carinho. Melhor fazer isso sozinhho porque senão parece meio ridículo e coisa de hippie paz e amor, mas funciona ao ponto que você cultiva tanto amor que transborda. Lógico que eu não sou assim o tempo todo, mas hoje eu tava com esse amor transbordando pra dar pra minha namorada que vinha me acordar e repassei pro Antonio.


Sim, o Antônio. No dia que eu tava fazendo minha mudança pro prédio que eu moro, eu discuti agressiva e violentamente com o Antonio, ele conseguiu me emputecer muito e dificultar minha mudança. O Antonio é um dos porteiros mais ranzinzas, de mais má vontade pra trabalhar que eu já vi. Tudo que é regra do prédio que ele puder usar pra te complicar tua vida ele usa. Antonio me parece um cara amargurado,  sempre olhando pra fora da portaria de cara fechada, como se fosse um passarinho preso na gaiola, um escravo do próprio destino. Ele resmunga alguma coisa tipo "Béah" que eu considero que é ele respondendo bom dia quando eu dou bom dia. 

Hoje Antonio tava em pé em frente a portaria com a sua tradicional cara de ânus. Depois que minha namorada não veio me acordar, eu desci até o térreo, me aproximei e falei: -Antonio -ele virou- dá um abraço aqui -e dei um abraço surpresa nele. Ele ficou meio constrangido, arredio e sem entender, eu também achei meio estranho, mas pelo menos foi a primeira vez que eu vi o Antonio abrir um sorriso.

Não diría que qualquer coisa, mas quase qualquer coisa é possível com AMOR.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Feliz ano novo Franco!





Hoje posso dizer que é o aniversário maissss felizzz da minha vida pra ser bem carioca, ok Carolina Bolados Sucos, que acabou de me zoar que nós cariocas somos exagerados.

Indo pra casa depois de chorar de rir no trabalho, caminho pela Avenida Paulista, horario do rush, cruzo com milhoes de pessoas e penso: vida humana preciosa.

Parece coisa de bocó, vidíase, ou sei lá o que, mas é verdade. Eu frequentei uma linhagem de budismo e tinha uma meditação com mentalização que eu nao entendia bem o sentido: estar vivo é precioso, a vida humana qualquer que ela seja é preciosa.

Eu nao tenho esposa, nao sou milhonario, nao tenho filho, nem carrão, nem mansão nem helicóptero, no momento nem moradia eu tenho, moro de favor hahaha
Nao tenho, nem sou nada que poderia ser considerado extraordinário aos olhos do sucesso padrão, mas me sinto extraordinariamente feliz e bem sucedido.

O fato de ter recebido tantos parabéns, me fez relembrar de como cada pessoa foi significante na minha vida, desde amigos próximos como Arthur,CamiloGabrielRafaelJonasPetrúquioDanielVivian, Alan, Felipe,MicheleSabrinaLucas S.João GarrelJulianaSali, até pessoas que curto muitoooo  tendo encontrado poucas vezes como Cammila Ferreira,Luana Biaca e Isabella Simão ou sem nem nunca ter encontrado pessoalmente como Sahara Boréas e Mariana Cristal Hui.

Todos vcs que me mandaram uma msg ou mesmo os que não, participaram dessa minha vida complexa e única, e cada um de voces teve tb uma vida única, complexa e preciosa.

Estar vivo é precioso pelo simples fato de existir, seja carregando sua cruz pesada, leve, seja sem cruz pra carregar, tanto pra quem é existencialista, quanto pra quem acredita em ceu e inferno ou reencarnaçao, estar vivo é uma oportunidade!

A gente poderia nao existir, nao ser nada ou estar desencarnado no limbo ou no inferno.

A gente foi escolhido por um acaso dos atomos do universo, ou por deus ou pelo diabo, pra estar aqui, nesse momento, vivos!

Escrevo esse post realmente pra compartilhar.
No sentido totalmente literal do botão do facebook.

Não é pra ganhar likes, nem pra tirar onda, nem pra mostrar "olha! bate palma pra mim, que eu sou um pollyanna moço mto feliz!"

Queria de alguma forma COMPARTILHAR/SHARE o que sinto, doar, fazer com que todo mundo que participou desses 32 anos sentisse isso que to sentindo hoje.

Agradeço a todos que se deram ao trabalho de vir aqui na minha página ou pelo celular ou pessoalmente me dar parabéns e me lembrar que vivi mais um ano.

parabéns pra mim hoje!
parabéns pra todos vcs por estarem vivos e fazerem parte da minha vida!

beijo do gordo wow!



segunda-feira, 14 de julho de 2014

Saber perder

A gente perdeu feio. Ninguém esperava. Mas quando alguém entra em uma partida pensando: hoje eu vou jogar pra sofrer uma linda derrota de 7x1, e amanhã quero perder de 3x0. É inocente não cogitar isso porque por mais que você seja do país do futebol da única seleção penta campeã que participou de todas as Copas, por mais que você seja o pica das galáxias, o Chico Buarque, o Justin Bieber o Brad Pitt ou a puta que o pariu uma coisa é certa: Você sempre pode sofrer uma derrota e inevitavelmente vai sofrer várias.

A esperança das 200 milhões de crianças brasileiras se esvaindo em forma de choro.


O brasileiro tem uma esperança linda, apesar de infantil, ingênua, quase burra. Existe esperança baseada em fatos e existe esperança de um milagre. A do brasileiro é essa segunda, meio mística, macumbeira, supersticiosa, que acredita que Mick Jagger e usar cueca repetida pode ganhar ou perder jogo. Esperança essa que não é muito concatenada com fatos e realidade. Milagres acontecem? Sim, e aconteceram nessa Copa. Por exemplo quando o Brasil tomou uma bola no travessão aos catorze do segundo tempo da prorrogação contra o Chile só pra citar um.  Mas milagres só são milagres pela raridade que ocorrem, senão seriam rotina e não milagres.

O que se esperava ao querer que o Brasil ganhasse da Holanda ou da Alemanha ou qualquer grande time dessa Copa eram praticamente milagres, era essa esperança mística baseada em fatos nada concretos. Analisando tática, fria e imparcialmente, estava na cara que o Brasil não tinha time pra ganhar das grandes seleções dessa Copa. Basta comparar jogador contra jogador, ou coletivo contra coletivo, ou em termos de esquema tático, enfim, não dava. Às vezes um time tem um craque, como Neymar, que decide jogo e faz milagre. Mas mesmo assim, no futebol de hoje, uma andorinha só raramente faz verão. Mas a esperança é a última que morre né? Mesmo quando ela é essa esperança ingênua. O preço a se pagar por uma esperança ingênua é uma surpresa enorme, é a revolta, é a lágrima perplexa diante de uma derrota, mesmo quando ela era iminente, o preço é não saber perder.

Alguns Brazucas demonstrando como sabem perder.


Eu mesmo fui um que no início acreditei muito, acompanhei fielmente, torci apaixonadamente e por um instante fiquei um misto de surpreso, perplexo, com raiva, querendo achar culpados do Brasil estar perdendo de 5 x 0 pra Alemanha (nem era de 7 ainda). Isso quase se repetiu no Brasil perdendo de 2 a 0 da Holanda (nem era 3 ainda) e eu me conscientizei e optei por não sentir mais a raiva burra que estava sentindo. Não sou um Buddha, mas diante do estímulo "Brasil sofre derrota jogando mal" que me irritou, eu tenho opções de como reagir a isso que não são obrigatoriamente ter raiva. E assim me toquei de como essa raiva quando a gente perde é infantil, é não saber perder.


A primeira coisa que acho maravilhosa das nossas derrotas, que é muito característica de brasileiro, é essa nossa facilidade, agilidade e senso de humor de fazer piada da desgraça. O problema é que é um "rir pra não chorar" e não um "rir pra superar". Porque mesmo com as piadas sinto que a derrota abala a autoestima de muito brasileiro bocó. Os bares vazios, milhares de pessoas tristes, chorando, revoltadas com muita raiva. Essa derrota é um retrato do nosso povo em campo, o Brasil não tem jeito, nem pro futebol a gente serve, ouvi essas frases idiotas derrotistas várias vezes. O que significa de fato perder de 7 ou de 3? Significa que eu ou você ou qualquer brasileiro é menor ou incompetente? Significa que nosso país é menos? O que tem a ver o ânus com as calças? Pra mim significa que 11 alemães e 11 holandeses jogaram melhor, estavam mais entrosados e mais bem preparados que 11 atletas brasileiros nesta partida de 90 minutos em 2014.

Concordo  que o Brasil não só perdeu. Perdeu de forma humilhante, ridícula, jogando mal e amarelando em casa. Concordo também que futebol é mais do que "apenas futebol".  No caso do Brasil onde o futebol é parte do universo de representações culturais que o brasileiro têm de si mesmo, uma derrota de 7x1 justo na parte a gente se acha muito foda, é uma facada no rim. O maior vexame da história das copas, dizem. Mas aí eu digo: Existe maior oportunidade de aprendizado que um vexame? Tem melhor forma de crescer do que depois de uma humilhação? Depois do ridículo?

Falo de futebol, mas a real é que como qualquer outro acontecimento fora ou dentro do nosso controle: é a gente que determina na nossa cabeça a interpretação dos fatos e o que eles significam na visão única que cada um tem de mundo. E é por isso que eu digo que a raiva diante de uma derrota é um sentimento burro, é falta de recurso pra reagir diferente. Afinal tem alguém no universo que gosta ou acha legal sentir raiva? Alguém que curte ficar triste e no fundo do poço?

É quase impossível assistir e não se irritar sendo um apaixonado por futebol como eu. Mas não é a toa que também dizem que a paixão também é um sentimento infantil, adolescente e burro as vezes. A raiva diante da derrota é um sentimento apaixonado, é não admitir que o outro foi melhor que você,  não aceitar que seu time foi pior. Por que ao invés de vaiar os nossos ou a si mesmo, a gente não aplaude e aprende com quem ou o que nos derrota?

Alguns sentem raiva de si mesmos diante da derrota. Acho ainda mais burro porque é não aceitar que você falhou,  que você falha e vai falhar mais, é ser implacável demais consigo mesmo e em certa medida não se amar.  Digo não se amar porque uma derrota não é uma catástrofe geral da sua existência, ela por si só não te define, como você reage a derrota sim te define.
Porque a derrota em si faz o que com a gente? Irrita? Entristece? Uma derrota diminui? Uma derrota não faz nada, quem faz é você. É você que pode abaixar a cabeça, se achar menor, se revoltar e se irritar.  Depois de perder você tem a oportunidade de superar suas deficiências ou de ir pro fundo do poço. A escolha é sua.

Abaixar a cabeça e chorar não é a única forma de reagir num 7x1, desculpa ae chorões.


Uma primeira forma positiva de olhar uma derrota é imaginar que sempre, sempre, sempre poderia ter sido pior. Ela podia ter dado pra outro cara na sua frente, você podia ter perdido tudo na sua aposta, e a derrota do Brasil podia ter sido de 7x0 pra Argentina.... Na final.

E depois sempre tem a hora de procurar o culpado pra derrota porque é sempre assim: o culpado é o Felipão, é o Fernandinho, é o Fred, é o Zuniga, é o caralho a quatro. Culpado pela derrota somos cada um de nós, se a gente não sabe assimilar o golpe, se a gente não entende que somos nós sim os culpados por como a gente reage a cada vez que a gente perde.


O negócio é que todos só queremos ser campeões em tudo, ostentar sorrisos, vitórias e títulos, difícil conhecer quem já levou porrada. A gente quer ser o único a vencer sempre e isso não é o futebol nem a vida. Não é não sentir ou ignorar que perdeu. Mas ter consciência que um 7 x 1 é sempre possível, bem como é reagir de forma diferente e usar a derrota como uma catalizador pra crescer.


Tento agradecer a todas a provas que não passei, todas as mulheres que me esnobaram, todos os jogos que perdi, a todos os nãos, a todos os 7x1 da vida que eu sofri, agradeço a todas as minhas derrotas. Nada ensina tanto quanto perder. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Antes fosse - Uma História Real Baseada em Fatos Cinematográficos


PRIMEIRO ATO - PRÓLOGO

Eu morava em apartamento. Qual a chance de um ladrão invadir o meu apê? Remota. Mas quando eu ouvi o barulho da porta abrindo, ainda de olhos fechados a primeira coisa que veio em mente:um ladrão entrando aqui em casa.
Antes fosse.
Deitado na cama, abri os olhos. Minha namorada com um sorriso de saudade no rosto. Olhei para ela. Dei um sorrisinho de oi + saudade+ sexta-feira+ meu dia de folga + acordei, mas não tenho hora para levantar.
Fechei os olhos.
- Que isso?! - disse ela num tom de choque misturado com raiva, deveras surpreendente pra mim naquele momento.
Sem me mover, de olhos fechados, pensei isso tudo em uma fração de segundo:
- Que isso?! Que isso o que??!! Que tipo de pergunta é essa!!!?? Uma hora dessa ?! Será foi porque dormi com a roupa suja da rua de novo? (Antes fosse...)Que chatinha, me deixa dormir, porra! 
Péra aí... 
Não, não, pera aí... 
Tem alguma coisa errada ...
Puuutzzz! Que merda...
Tem uma mulher na cama comigo!
Ah essas coincidências cinematográficas. Coincidiu: eu ficar no Rio no fim de semana + o samba do chapeu em Santa Teresa +  uma moçoila vinda da Hungria sambando no Brasil na minha frente. Ela era conhecida de um conhecido e sim, achei ela bonita. Meu contato com ela foi trocar um par de palavras e alguns pares de olhares, e minha intuição me disse que a gringa ficou interessada em mim. Uma semana depois, confirmei quando recebi o seguinte email num inglês bem endêmico:
Oi  Franco!
Tudo bem. :)
I don`t know you remember me, but we met in Santa Teresa last Sanday.
You know I`m a Hungarian girl. And we have a common friend Joan. :)
So Joan told me you are artist and maybe you can`t help me...
Because maybe I`m also artist.
So if you have time check my photos.
I have Brazilian number, so I hope see you later. I like you. I hope be with you more. :)
Have a nice day! :)
N.
E assim começou tudo.
Tudo a mais genuína ingenuidade.
Tudo uma grande incidência de incidentes.
Tudo uma sequência de inconsequências.


A Húngara parecia muito com a Daenerys Targaryen nessa ilustração, sente o drama.



SEGUNDO ATO - UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA


Sempre me irritou o fato de que minha namorada (que era muito linda, o apelido dela no teatro era Jolie, por causa da semelhança com a Angelina) dava trela pra todo mundo. Isso ela fazia bem: Falava com qualquer homem na rua, achava(dizia ela que achava) que todo mundo queria só ser amigão, e dava papo, e era super simpática, e dava o telefone. É amigo, isso mesmo: o telefone!
Talvez pra me provocar? Talvez. Talvez só por ser simpática? Talvez. Talvez pra massagear o ego dela? É...talvez... Mas enquanto isso, na cabeça masculina: "Beleza, tá me dando mole,vou pegar, vou comer!"
Mas e eu? Eu? Eu achei bem estranho e achei talvez um pouco mais claro o interesse da gringa, depois do email, mas...É, eu dei trela. É, eu fui super simpático, agradável... Eu dei o telefone.
É, é isso mesmo! O telefone! Cinco minutos depois ele tocou. E eu? É... pois é, eu dei mais trela.
Na semana seguinte em que dei e recebi ligações, eu oscilei entre:
Essa menina tá me dando muito mole...
Essa menina e só gente boa, não tá me dando mole...
Não! Ela tá me dando mole!
Não, nada a ver, não tá não...
Tudo a ver. Ela tava dando mole. E o que eu fiz? Aaaah eu continuei com a ingenuidade, continuemos a dar trela, não é? Talvez porque eu sou inconsequente? Talvez. Talvez pra me vingar da minha namorada? Talvez. Talvez porque eu e 98% da população mundial gostamos de ter o ego massageado? Talvez...
Mas enquanto isso, na cabeça da gringa: "Beleza, um latino exótico tá me dando mole e quer me comer!”.
E depois de muitos contatos por telefone, porque não se enganar, fingir que está tudo sob controle e marcar um contato pessoal acompanhado de cerveja?
Vai acreditar numa ingenuidade dessa...
Fomos beber na praça São Salvador e foi quando percebi o interesse claro através de toques e de olhares, realmente, estava tudo sob controle. Eu não estava afim de nada, nem de dar uns beijinhos, e a gringa ia fazer o que? Me agarrar?
Por via das dúvidas, que tal falar da minha namorada??? Mas quanta ingenuidade, garoto! Falta de interesse do macho e comprometimento com outro ser do sexo feminino são os maiores aguçadores do desejo das fêmeas! Só não se toca disso quem é garoto, garotinho juvenil como eu.
Depois de três cervejas já era Game Over pra mim, mas a gringa querendo muito jogo. Na praça, silêncios e olhares constrangedores entre eu e a gringa. Ela olhava, eu desolhava. Eu desinteressava, ela se interessava mais. Eu desaproximava, ela aproximava.
-Eu vou embora- disse eu, acreditando ingenuamente no fim daquilo tudo.
-Eu também- disse ela, acreditando na continuação daquilo tudo.
-Minha casa é logo ali vou a pé, mas antes te acompanho até o ponto- decretando o final.
-Não, pode deixar. Eu também vou a pé- decretando um novo começo...
Eis o começo de uma tragédia anunciada: Era uma vez uma húngara que queria ir a pé da praça São Salvador para casa. Só que ela morava no Albergue Flamejante Synedoque NY em Copacabana, que era em um reino muito distante. Ela foi embora a pé e ele foi para seu apartamento e ambos foram felizes para sempre. Assim foi a história.
Antes fosse.
Já era meia noite e sería bem sem noção deixar a gringa ir embora a pé sozinha. Sabendo disso, o ingênuo menino disse:
-Que isso!? Que a pé, N.!! Você tá viajando! É muito longe!- falei eu, o bom menino.
Ela insistiu, e insistiu e insistiu, e insistiu. E quando viu estava ele, no meio da Senador Vergueiro indo a pé... Pra onde?
Pra Copacabana. Pra Copacabana?!?!
-Que isso, você tá viajando! Vamos pegar meu carro, te levo em casa.
E assim seguiu o bom menino garoteando.
As músicas românticas acidentais no rádio insistiam em querer criar o clima que eu insistia em querer quebrar e que a gringa insistia em querer criar.
Chegamos! Beijo, tchau e benção! Até mais queridona...
Antes fosse...
Paro o carro, ela me olha e olha minha boca. Me olha. Olha minha boca. Ela espera não sei (mas sei) o que.
- So...that's it, right? Eu achando que tinha acabado. Ha- ha -ha
Ela não pára de me olhar. Meu Deus ela não pára. E pra não olhar pra ela olho para fora e, olha que beleza!
Uma galera, muita gente mesmo, do lado de fora na porta do albergue dela.
- Teu albergue é rock n' roll hein? Alguma festa lá hoje? -brinquei eu.
Com cara de surpresa ela olha e diz:
-No, there is something wrong happening.
Caminhamos até o albergue e vos apresento:
Albergue Synedoque NY: o único Albergue do Rio que pega fogo!
Pois é isso mesmo que você leu: o albergue dela não TINHA pegado nem IRIA pegar fogo, o albergue dela ESTAVA PEGANDO (gerúndio!) fogo na hora exata que eu ia deixar a mocinha em casa. Caminhão de bombeiros chega, sirene ensurdecedora, pandemônio, confusão e tudo da gringa dentro do local em chamas.
Como um bom garoto, criado a leite com pêra, você acha que eu vou ser insensível ao ponto de dar um "tchau a gente se fala" CARIOCA STYLE para um menina numa hora e situação dessa?
Antes fosse...



TERCEIRO ATO - EUROPEAN STYLE EPILOGUE

Se você fosse um bom menino você levaria uma europeia gostosa pra sua casa prometendo a ela: pode ficar tranquila, não quero e não vou fazer nada com você? Pois é, eu fui.
Garotinho, eu já comecei errado que com um apartamento de 3 quartos, e 4 camas, escolhi a minha cama pra alojar a rapariga e dar uma de bom anfitrião.
Continuei errado quando disse:
-Fica a vontade ae, toma aqui uma toalha, uma camisa e um short.
Fiquei ainda mais errado ao fingir naturalidade quando a gringa saiu maliciosa e sedutora do banho, só de camisa e calcinha, sem o short que eu dei.
Como se ainda fosse possível, eu consegui me afundar mais ainda quando atendi ao pedido do European Style que você vai entender em breve do que se trata.
Arrumei um colchão pra mim no chão enquanto a húngara me olhava da beira da cama. Deitei enquanto a húngara me olhava da beira da cama.
Virei pro outro lado e a húngara continuava me olhando na beira da cama.
-Algum problema?
Quase chorando, mimada dengosa (que palavra escrota, mas é a que descreve melhor) de olhos azuis dos infernos ela me responde:
- É que depois de tudo que aconteceu onde eu moro, pensei que você tinha me chamado pra gente dormir junto.
Calmamente, levanto do colchão, sento ao lado dela na cama e explico:
-Querida N., não sei dos hábitos húngaros, mas no Brasil, e no meu relacionamento atual, não é aceitável "dormir junto" (fiz as aspas com os dedinhos pra ela nessa hora) de uma mulher que não seja a sua namorada.
-Não, mas não tem problema, não precisa acontecer nada, só vamos dormir juntos... EUROPEAN STYLE.
É como chegamos ao início do fim. Início desse texto, fim do meu namoro de 2 anos. Dormimos juntos. Não, eu não fiz nada, nem um beijinho. Mas imagine, sua namorada, que está temporariamente morando na sua casa, chega as 7 horas da manhã e vê uma loira gostosa deitada com você. O que dizer á ela numa hora dessas?

-Calma, A. não é nada disso que você tá pensando! 


Caso você tenha a oportunidade maravilhosa de ser pego na cama com uma outra, acredite: tenha feito tudo ou não tenha feito nada, você não vai resistir ao cliché automático das novelas e vai dizer o que eu disse :
- Calma, (nome da sua namorada) não é nada disso que você tá pensando...


Eu falei isso e explodi numa gargalhada por estar falando o cliché mais novela das 8 possível.  A linda húngara que acordou com o lindo cabelo sendo puxado, com tapas na linda cara e ouvindo lindas palavras chulas que o português quase zero dela certamente não conhecia, não entendeu nada. Ainda mais porque eu ria e apanhava ainda mais da minha ex quando explicava que não tinha acontecido nada. Ria ainda mais e apanhava ainda mais quando falava que ela só dormiu comigo porque a casa dela tinha pegado fogo!

Depois da surra que acordou os vizinhos, meu amigo que morava comigo, acalmou e levou minha namorada pra fora do apartamento e na volta escutou a gringa dizendo:
-Você não quer que eu fale nada com sua namorada? Eu posso explicar que você não fez nada, que só foi super gentil e que só dormimos EUROPEAN STYLE...( amaldiçoada seja a Europa e seus estilos de dormir)
-Melhor não, N. você já apanhou bastante e vai apanhar mais se encontrar ela ainda hoje.
Assim, 7 e poucos da manhã, desço de short de pijama e sem camisa com a gringa até a portaria do meu prédio. Quando estou eu chegando no portão de saída do prédio acompanhando a gringa, minha namorada está voltando pro prédio: baixaria cinematográfica.
Então minha agora ex-namorada, depois de mais uma surra na gringa e em mim, dessa vez na portaria do prédio,  entra e sobe o elevador. Eu observo atônito e rio da surrealidade desta história real, baseada em fatos de cinema. A húngara sai e vai rebolando gostosona pela manhã numa rua de Laranjeiras.
O porteiro, um coroa sacana de 60 e poucos anos, observa ainda chocado, amarrotado e levemente arranhado por tentar apartar a peleia. Ele olha pra bunda rebolante da gringa, me olha e diz:
- Bom, pelo menos você comeu bem hein... haha Foda foi boa, né garoto?

Rio muito respondo:

-Antes fosse, seu Chico, antes fosse!
Depois de ter apanhado de short de pijama na portaria do meu prédio, depois de ter sido aviltado aos berros na Conde de Baependi, de ser chamado de galinha, piranhudo, filho da puta, cretino, sem ter feito NADA com a gringa... De fato, a cena que ela viu, não FOI nada do que ela estava pensando. Mas quer saber?
Antes fosse.