quarta-feira, 23 de julho de 2014

Amor grátis

Hoje eu dei uma abraço no Antonio. Uma coisa que eu não achava que conseguiria fazer, eu dei um abraço no Antonio.

Minha namorada ficou de passar na minha casa antes de ir pro trabalho, pra deixar umas coisas e disse que ia me acordar com amor. A gente briga de uma a três vezes por semana, geralmente as quintas as 21:00 ou algum outro horário de nossa escolha, de preferência bem tarde da noite. Sou irônico aqui pra deixar claro que tenho uma relação longe de perfeitinha, é bem truncada, mas quando se ama é muito amor também. Adoro ser acordado com amor. Acho que todo mundo gosta. Até o Antonio deve gostar.

Eu fiquei meio dormindo meio acordado na cama esperando, cheio de amor pra dar e receber. Ela entra no trabalho as 10 horas, quando vi já era 9:45, ouvi o barulho do elevador ainda deitado. Me levantei rápido e fui pra trás da porta pra dar um amor surpresa lateral pra minha namorada. Não era ela. Liguei, não deu pra ela ir e já estava no trabalho. Então eu decidi que tinha que fazer alguma coisa produtiva com aquele amor.

Tem uma história que eu li que fala do discípulo que foi reclamar com o mestre: “Mestre, eu tenho tentado de várias maneiras, mas não consigo falar com Deus, como faço?”, e o Mestre muito mestrosamente: “Em vez de me pedir o telefone de Deus, seria melhor você desocupar o seu telefone, porque Ele tenta ligar para você direto, mas tua linha tá sempre ocupada”. Um guru desses aí, fala que o coração é uma central telefônica. E não é o central escrota tipo a da TIM, mas uma que sempre tem linha disponível para atender quem liga, só que quem escolhe desocupar as linhas somos nós. 

A gente poderia estar aberto a dar muito mais amor do que dá. Por que a gente não distribui mais amor? De graça, sem querer nada em troca, nos dias que a gente tem pra dar. Difícil né? As pessoas dizem que acreditam no amor, mas quando você oferece amor grátis, elas desconfiam, debocham e duvidam. E se existe um lugar de incredulidade encalacrada no amor é o carnaval. 

No meu último carnaval solteiro em 2011 eu saí pintando todo mundo com um pinta cara e abrindo chakras pacas. O quarto chakra, é o chakra do coração, do amor, quando você abre o peito e abre seu chakra, rapaz, tem muito amor pra dar ali se você quiser. Pra mim começou assim, fazendo yoga, abrindo o peito e indo pro carnaval. Parece contraditório, mas não é.


Eu fazia uma brincadeira muito séria, que não era balela pra beijar 700 bocas até porque a brincadeira sempre repelia as mulheres, que me achavam muito louco, apesar de eu estar bem são do que estava fazendo, que era a seguinte: 

Você deixa eu te amar por 30 segundos?
Sabe quantas mulheres se deixaram amar?ha-ha

Até a quarta feira de cinzas, quando uma mulher se deixou amar.
E o mais legal da história é que essa mulher também tinha sua frase de carnaval que repelia homens. Em resposta á pergunta escrotinha "deixa eu te beijar?", ela falava: 
Depende, você vai me convidar pra almoçar amanhã? 
Sabe quantos quiseram beijar ela? ha-ha

Até que a gente se encontrou no Baixo Gávea na quarta-feira de cinzas.
-Você deixa eu te amar por 30 segundos?
-Depende, você vai me convidar pra almoçar amanhã?
A gente olhou no olho, não falou nada, se abraçou forte e se beijou gostoso. Ela é a minha namorada que ia vir me acordar hoje.

Tem um exercício que li num livro do Osho que é pra você praticar e cultivar o sentimento do amor incondicional, pelo simples fato do sentimento dentro de você, que te faz mais feliz e você irradia isso e isso se irradia e isso é bom pra todo mundo. Ele fala pra você sentar ao lado de uma pedra e ser amoroso com ela, beijar, abraçar e fazer carinho. Melhor fazer isso sozinhho porque senão parece meio ridículo e coisa de hippie paz e amor, mas funciona ao ponto que você cultiva tanto amor que transborda. Lógico que eu não sou assim o tempo todo, mas hoje eu tava com esse amor transbordando pra dar pra minha namorada que vinha me acordar e repassei pro Antonio.


Sim, o Antônio. No dia que eu tava fazendo minha mudança pro prédio que eu moro, eu discuti agressiva e violentamente com o Antonio, ele conseguiu me emputecer muito e dificultar minha mudança. O Antonio é um dos porteiros mais ranzinzas, de mais má vontade pra trabalhar que eu já vi. Tudo que é regra do prédio que ele puder usar pra te complicar tua vida ele usa. Antonio me parece um cara amargurado,  sempre olhando pra fora da portaria de cara fechada, como se fosse um passarinho preso na gaiola, um escravo do próprio destino. Ele resmunga alguma coisa tipo "Béah" que eu considero que é ele respondendo bom dia quando eu dou bom dia. 

Hoje Antonio tava em pé em frente a portaria com a sua tradicional cara de ânus. Depois que minha namorada não veio me acordar, eu desci até o térreo, me aproximei e falei: -Antonio -ele virou- dá um abraço aqui -e dei um abraço surpresa nele. Ele ficou meio constrangido, arredio e sem entender, eu também achei meio estranho, mas pelo menos foi a primeira vez que eu vi o Antonio abrir um sorriso.

Não diría que qualquer coisa, mas quase qualquer coisa é possível com AMOR.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Feliz ano novo Franco!





Hoje posso dizer que é o aniversário maissss felizzz da minha vida pra ser bem carioca, ok Carolina Bolados Sucos, que acabou de me zoar que nós cariocas somos exagerados.

Indo pra casa depois de chorar de rir no trabalho, caminho pela Avenida Paulista, horario do rush, cruzo com milhoes de pessoas e penso: vida humana preciosa.

Parece coisa de bocó, vidíase, ou sei lá o que, mas é verdade. Eu frequentei uma linhagem de budismo e tinha uma meditação com mentalização que eu nao entendia bem o sentido: estar vivo é precioso, a vida humana qualquer que ela seja é preciosa.

Eu nao tenho esposa, nao sou milhonario, nao tenho filho, nem carrão, nem mansão nem helicóptero, no momento nem moradia eu tenho, moro de favor hahaha
Nao tenho, nem sou nada que poderia ser considerado extraordinário aos olhos do sucesso padrão, mas me sinto extraordinariamente feliz e bem sucedido.

O fato de ter recebido tantos parabéns, me fez relembrar de como cada pessoa foi significante na minha vida, desde amigos próximos como Arthur,CamiloGabrielRafaelJonasPetrúquioDanielVivian, Alan, Felipe,MicheleSabrinaLucas S.João GarrelJulianaSali, até pessoas que curto muitoooo  tendo encontrado poucas vezes como Cammila Ferreira,Luana Biaca e Isabella Simão ou sem nem nunca ter encontrado pessoalmente como Sahara Boréas e Mariana Cristal Hui.

Todos vcs que me mandaram uma msg ou mesmo os que não, participaram dessa minha vida complexa e única, e cada um de voces teve tb uma vida única, complexa e preciosa.

Estar vivo é precioso pelo simples fato de existir, seja carregando sua cruz pesada, leve, seja sem cruz pra carregar, tanto pra quem é existencialista, quanto pra quem acredita em ceu e inferno ou reencarnaçao, estar vivo é uma oportunidade!

A gente poderia nao existir, nao ser nada ou estar desencarnado no limbo ou no inferno.

A gente foi escolhido por um acaso dos atomos do universo, ou por deus ou pelo diabo, pra estar aqui, nesse momento, vivos!

Escrevo esse post realmente pra compartilhar.
No sentido totalmente literal do botão do facebook.

Não é pra ganhar likes, nem pra tirar onda, nem pra mostrar "olha! bate palma pra mim, que eu sou um pollyanna moço mto feliz!"

Queria de alguma forma COMPARTILHAR/SHARE o que sinto, doar, fazer com que todo mundo que participou desses 32 anos sentisse isso que to sentindo hoje.

Agradeço a todos que se deram ao trabalho de vir aqui na minha página ou pelo celular ou pessoalmente me dar parabéns e me lembrar que vivi mais um ano.

parabéns pra mim hoje!
parabéns pra todos vcs por estarem vivos e fazerem parte da minha vida!

beijo do gordo wow!



segunda-feira, 14 de julho de 2014

Saber perder

A gente perdeu feio. Ninguém esperava. Mas quando alguém entra em uma partida pensando: hoje eu vou jogar pra sofrer uma linda derrota de 7x1, e amanhã quero perder de 3x0. É inocente não cogitar isso porque por mais que você seja do país do futebol da única seleção penta campeã que participou de todas as Copas, por mais que você seja o pica das galáxias, o Chico Buarque, o Justin Bieber o Brad Pitt ou a puta que o pariu uma coisa é certa: Você sempre pode sofrer uma derrota e inevitavelmente vai sofrer várias.

A esperança das 200 milhões de crianças brasileiras se esvaindo em forma de choro.


O brasileiro tem uma esperança linda, apesar de infantil, ingênua, quase burra. Existe esperança baseada em fatos e existe esperança de um milagre. A do brasileiro é essa segunda, meio mística, macumbeira, supersticiosa, que acredita que Mick Jagger e usar cueca repetida pode ganhar ou perder jogo. Esperança essa que não é muito concatenada com fatos e realidade. Milagres acontecem? Sim, e aconteceram nessa Copa. Por exemplo quando o Brasil tomou uma bola no travessão aos catorze do segundo tempo da prorrogação contra o Chile só pra citar um.  Mas milagres só são milagres pela raridade que ocorrem, senão seriam rotina e não milagres.

O que se esperava ao querer que o Brasil ganhasse da Holanda ou da Alemanha ou qualquer grande time dessa Copa eram praticamente milagres, era essa esperança mística baseada em fatos nada concretos. Analisando tática, fria e imparcialmente, estava na cara que o Brasil não tinha time pra ganhar das grandes seleções dessa Copa. Basta comparar jogador contra jogador, ou coletivo contra coletivo, ou em termos de esquema tático, enfim, não dava. Às vezes um time tem um craque, como Neymar, que decide jogo e faz milagre. Mas mesmo assim, no futebol de hoje, uma andorinha só raramente faz verão. Mas a esperança é a última que morre né? Mesmo quando ela é essa esperança ingênua. O preço a se pagar por uma esperança ingênua é uma surpresa enorme, é a revolta, é a lágrima perplexa diante de uma derrota, mesmo quando ela era iminente, o preço é não saber perder.

Alguns Brazucas demonstrando como sabem perder.


Eu mesmo fui um que no início acreditei muito, acompanhei fielmente, torci apaixonadamente e por um instante fiquei um misto de surpreso, perplexo, com raiva, querendo achar culpados do Brasil estar perdendo de 5 x 0 pra Alemanha (nem era de 7 ainda). Isso quase se repetiu no Brasil perdendo de 2 a 0 da Holanda (nem era 3 ainda) e eu me conscientizei e optei por não sentir mais a raiva burra que estava sentindo. Não sou um Buddha, mas diante do estímulo "Brasil sofre derrota jogando mal" que me irritou, eu tenho opções de como reagir a isso que não são obrigatoriamente ter raiva. E assim me toquei de como essa raiva quando a gente perde é infantil, é não saber perder.


A primeira coisa que acho maravilhosa das nossas derrotas, que é muito característica de brasileiro, é essa nossa facilidade, agilidade e senso de humor de fazer piada da desgraça. O problema é que é um "rir pra não chorar" e não um "rir pra superar". Porque mesmo com as piadas sinto que a derrota abala a autoestima de muito brasileiro bocó. Os bares vazios, milhares de pessoas tristes, chorando, revoltadas com muita raiva. Essa derrota é um retrato do nosso povo em campo, o Brasil não tem jeito, nem pro futebol a gente serve, ouvi essas frases idiotas derrotistas várias vezes. O que significa de fato perder de 7 ou de 3? Significa que eu ou você ou qualquer brasileiro é menor ou incompetente? Significa que nosso país é menos? O que tem a ver o ânus com as calças? Pra mim significa que 11 alemães e 11 holandeses jogaram melhor, estavam mais entrosados e mais bem preparados que 11 atletas brasileiros nesta partida de 90 minutos em 2014.

Concordo  que o Brasil não só perdeu. Perdeu de forma humilhante, ridícula, jogando mal e amarelando em casa. Concordo também que futebol é mais do que "apenas futebol".  No caso do Brasil onde o futebol é parte do universo de representações culturais que o brasileiro têm de si mesmo, uma derrota de 7x1 justo na parte a gente se acha muito foda, é uma facada no rim. O maior vexame da história das copas, dizem. Mas aí eu digo: Existe maior oportunidade de aprendizado que um vexame? Tem melhor forma de crescer do que depois de uma humilhação? Depois do ridículo?

Falo de futebol, mas a real é que como qualquer outro acontecimento fora ou dentro do nosso controle: é a gente que determina na nossa cabeça a interpretação dos fatos e o que eles significam na visão única que cada um tem de mundo. E é por isso que eu digo que a raiva diante de uma derrota é um sentimento burro, é falta de recurso pra reagir diferente. Afinal tem alguém no universo que gosta ou acha legal sentir raiva? Alguém que curte ficar triste e no fundo do poço?

É quase impossível assistir e não se irritar sendo um apaixonado por futebol como eu. Mas não é a toa que também dizem que a paixão também é um sentimento infantil, adolescente e burro as vezes. A raiva diante da derrota é um sentimento apaixonado, é não admitir que o outro foi melhor que você,  não aceitar que seu time foi pior. Por que ao invés de vaiar os nossos ou a si mesmo, a gente não aplaude e aprende com quem ou o que nos derrota?

Alguns sentem raiva de si mesmos diante da derrota. Acho ainda mais burro porque é não aceitar que você falhou,  que você falha e vai falhar mais, é ser implacável demais consigo mesmo e em certa medida não se amar.  Digo não se amar porque uma derrota não é uma catástrofe geral da sua existência, ela por si só não te define, como você reage a derrota sim te define.
Porque a derrota em si faz o que com a gente? Irrita? Entristece? Uma derrota diminui? Uma derrota não faz nada, quem faz é você. É você que pode abaixar a cabeça, se achar menor, se revoltar e se irritar.  Depois de perder você tem a oportunidade de superar suas deficiências ou de ir pro fundo do poço. A escolha é sua.

Abaixar a cabeça e chorar não é a única forma de reagir num 7x1, desculpa ae chorões.


Uma primeira forma positiva de olhar uma derrota é imaginar que sempre, sempre, sempre poderia ter sido pior. Ela podia ter dado pra outro cara na sua frente, você podia ter perdido tudo na sua aposta, e a derrota do Brasil podia ter sido de 7x0 pra Argentina.... Na final.

E depois sempre tem a hora de procurar o culpado pra derrota porque é sempre assim: o culpado é o Felipão, é o Fernandinho, é o Fred, é o Zuniga, é o caralho a quatro. Culpado pela derrota somos cada um de nós, se a gente não sabe assimilar o golpe, se a gente não entende que somos nós sim os culpados por como a gente reage a cada vez que a gente perde.


O negócio é que todos só queremos ser campeões em tudo, ostentar sorrisos, vitórias e títulos, difícil conhecer quem já levou porrada. A gente quer ser o único a vencer sempre e isso não é o futebol nem a vida. Não é não sentir ou ignorar que perdeu. Mas ter consciência que um 7 x 1 é sempre possível, bem como é reagir de forma diferente e usar a derrota como uma catalizador pra crescer.


Tento agradecer a todas a provas que não passei, todas as mulheres que me esnobaram, todos os jogos que perdi, a todos os nãos, a todos os 7x1 da vida que eu sofri, agradeço a todas as minhas derrotas. Nada ensina tanto quanto perder. 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Antes fosse - Uma História Real Baseada em Fatos Cinematográficos


PRIMEIRO ATO - PRÓLOGO

Eu morava em apartamento. Qual a chance de um ladrão invadir o meu apê? Remota. Mas quando eu ouvi o barulho da porta abrindo, ainda de olhos fechados a primeira coisa que veio em mente:um ladrão entrando aqui em casa.
Antes fosse.
Deitado na cama, abri os olhos. Minha namorada com um sorriso de saudade no rosto. Olhei para ela. Dei um sorrisinho de oi + saudade+ sexta-feira+ meu dia de folga + acordei, mas não tenho hora para levantar.
Fechei os olhos.
- Que isso?! - disse ela num tom de choque misturado com raiva, deveras surpreendente pra mim naquele momento.
Sem me mover, de olhos fechados, pensei isso tudo em uma fração de segundo:
- Que isso?! Que isso o que??!! Que tipo de pergunta é essa!!!?? Uma hora dessa ?! Será foi porque dormi com a roupa suja da rua de novo? (Antes fosse...)Que chatinha, me deixa dormir, porra! 
Péra aí... 
Não, não, pera aí... 
Tem alguma coisa errada ...
Puuutzzz! Que merda...
Tem uma mulher na cama comigo!
Ah essas coincidências cinematográficas. Coincidiu: eu ficar no Rio no fim de semana + o samba do chapeu em Santa Teresa +  uma moçoila vinda da Hungria sambando no Brasil na minha frente. Ela era conhecida de um conhecido e sim, achei ela bonita. Meu contato com ela foi trocar um par de palavras e alguns pares de olhares, e minha intuição me disse que a gringa ficou interessada em mim. Uma semana depois, confirmei quando recebi o seguinte email num inglês bem endêmico:
Oi  Franco!
Tudo bem. :)
I don`t know you remember me, but we met in Santa Teresa last Sanday.
You know I`m a Hungarian girl. And we have a common friend Joan. :)
So Joan told me you are artist and maybe you can`t help me...
Because maybe I`m also artist.
So if you have time check my photos.
I have Brazilian number, so I hope see you later. I like you. I hope be with you more. :)
Have a nice day! :)
N.
E assim começou tudo.
Tudo a mais genuína ingenuidade.
Tudo uma grande incidência de incidentes.
Tudo uma sequência de inconsequências.


A Húngara parecia muito com a Daenerys Targaryen nessa ilustração, sente o drama.



SEGUNDO ATO - UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA


Sempre me irritou o fato de que minha namorada (que era muito linda, o apelido dela no teatro era Jolie, por causa da semelhança com a Angelina) dava trela pra todo mundo. Isso ela fazia bem: Falava com qualquer homem na rua, achava(dizia ela que achava) que todo mundo queria só ser amigão, e dava papo, e era super simpática, e dava o telefone. É amigo, isso mesmo: o telefone!
Talvez pra me provocar? Talvez. Talvez só por ser simpática? Talvez. Talvez pra massagear o ego dela? É...talvez... Mas enquanto isso, na cabeça masculina: "Beleza, tá me dando mole,vou pegar, vou comer!"
Mas e eu? Eu? Eu achei bem estranho e achei talvez um pouco mais claro o interesse da gringa, depois do email, mas...É, eu dei trela. É, eu fui super simpático, agradável... Eu dei o telefone.
É, é isso mesmo! O telefone! Cinco minutos depois ele tocou. E eu? É... pois é, eu dei mais trela.
Na semana seguinte em que dei e recebi ligações, eu oscilei entre:
Essa menina tá me dando muito mole...
Essa menina e só gente boa, não tá me dando mole...
Não! Ela tá me dando mole!
Não, nada a ver, não tá não...
Tudo a ver. Ela tava dando mole. E o que eu fiz? Aaaah eu continuei com a ingenuidade, continuemos a dar trela, não é? Talvez porque eu sou inconsequente? Talvez. Talvez pra me vingar da minha namorada? Talvez. Talvez porque eu e 98% da população mundial gostamos de ter o ego massageado? Talvez...
Mas enquanto isso, na cabeça da gringa: "Beleza, um latino exótico tá me dando mole e quer me comer!”.
E depois de muitos contatos por telefone, porque não se enganar, fingir que está tudo sob controle e marcar um contato pessoal acompanhado de cerveja?
Vai acreditar numa ingenuidade dessa...
Fomos beber na praça São Salvador e foi quando percebi o interesse claro através de toques e de olhares, realmente, estava tudo sob controle. Eu não estava afim de nada, nem de dar uns beijinhos, e a gringa ia fazer o que? Me agarrar?
Por via das dúvidas, que tal falar da minha namorada??? Mas quanta ingenuidade, garoto! Falta de interesse do macho e comprometimento com outro ser do sexo feminino são os maiores aguçadores do desejo das fêmeas! Só não se toca disso quem é garoto, garotinho juvenil como eu.
Depois de três cervejas já era Game Over pra mim, mas a gringa querendo muito jogo. Na praça, silêncios e olhares constrangedores entre eu e a gringa. Ela olhava, eu desolhava. Eu desinteressava, ela se interessava mais. Eu desaproximava, ela aproximava.
-Eu vou embora- disse eu, acreditando ingenuamente no fim daquilo tudo.
-Eu também- disse ela, acreditando na continuação daquilo tudo.
-Minha casa é logo ali vou a pé, mas antes te acompanho até o ponto- decretando o final.
-Não, pode deixar. Eu também vou a pé- decretando um novo começo...
Eis o começo de uma tragédia anunciada: Era uma vez uma húngara que queria ir a pé da praça São Salvador para casa. Só que ela morava no Albergue Flamejante Synedoque NY em Copacabana, que era em um reino muito distante. Ela foi embora a pé e ele foi para seu apartamento e ambos foram felizes para sempre. Assim foi a história.
Antes fosse.
Já era meia noite e sería bem sem noção deixar a gringa ir embora a pé sozinha. Sabendo disso, o ingênuo menino disse:
-Que isso!? Que a pé, N.!! Você tá viajando! É muito longe!- falei eu, o bom menino.
Ela insistiu, e insistiu e insistiu, e insistiu. E quando viu estava ele, no meio da Senador Vergueiro indo a pé... Pra onde?
Pra Copacabana. Pra Copacabana?!?!
-Que isso, você tá viajando! Vamos pegar meu carro, te levo em casa.
E assim seguiu o bom menino garoteando.
As músicas românticas acidentais no rádio insistiam em querer criar o clima que eu insistia em querer quebrar e que a gringa insistia em querer criar.
Chegamos! Beijo, tchau e benção! Até mais queridona...
Antes fosse...
Paro o carro, ela me olha e olha minha boca. Me olha. Olha minha boca. Ela espera não sei (mas sei) o que.
- So...that's it, right? Eu achando que tinha acabado. Ha- ha -ha
Ela não pára de me olhar. Meu Deus ela não pára. E pra não olhar pra ela olho para fora e, olha que beleza!
Uma galera, muita gente mesmo, do lado de fora na porta do albergue dela.
- Teu albergue é rock n' roll hein? Alguma festa lá hoje? -brinquei eu.
Com cara de surpresa ela olha e diz:
-No, there is something wrong happening.
Caminhamos até o albergue e vos apresento:
Albergue Synedoque NY: o único Albergue do Rio que pega fogo!
Pois é isso mesmo que você leu: o albergue dela não TINHA pegado nem IRIA pegar fogo, o albergue dela ESTAVA PEGANDO (gerúndio!) fogo na hora exata que eu ia deixar a mocinha em casa. Caminhão de bombeiros chega, sirene ensurdecedora, pandemônio, confusão e tudo da gringa dentro do local em chamas.
Como um bom garoto, criado a leite com pêra, você acha que eu vou ser insensível ao ponto de dar um "tchau a gente se fala" CARIOCA STYLE para um menina numa hora e situação dessa?
Antes fosse...



TERCEIRO ATO - EUROPEAN STYLE EPILOGUE

Se você fosse um bom menino você levaria uma europeia gostosa pra sua casa prometendo a ela: pode ficar tranquila, não quero e não vou fazer nada com você? Pois é, eu fui.
Garotinho, eu já comecei errado que com um apartamento de 3 quartos, e 4 camas, escolhi a minha cama pra alojar a rapariga e dar uma de bom anfitrião.
Continuei errado quando disse:
-Fica a vontade ae, toma aqui uma toalha, uma camisa e um short.
Fiquei ainda mais errado ao fingir naturalidade quando a gringa saiu maliciosa e sedutora do banho, só de camisa e calcinha, sem o short que eu dei.
Como se ainda fosse possível, eu consegui me afundar mais ainda quando atendi ao pedido do European Style que você vai entender em breve do que se trata.
Arrumei um colchão pra mim no chão enquanto a húngara me olhava da beira da cama. Deitei enquanto a húngara me olhava da beira da cama.
Virei pro outro lado e a húngara continuava me olhando na beira da cama.
-Algum problema?
Quase chorando, mimada dengosa (que palavra escrota, mas é a que descreve melhor) de olhos azuis dos infernos ela me responde:
- É que depois de tudo que aconteceu onde eu moro, pensei que você tinha me chamado pra gente dormir junto.
Calmamente, levanto do colchão, sento ao lado dela na cama e explico:
-Querida N., não sei dos hábitos húngaros, mas no Brasil, e no meu relacionamento atual, não é aceitável "dormir junto" (fiz as aspas com os dedinhos pra ela nessa hora) de uma mulher que não seja a sua namorada.
-Não, mas não tem problema, não precisa acontecer nada, só vamos dormir juntos... EUROPEAN STYLE.
É como chegamos ao início do fim. Início desse texto, fim do meu namoro de 2 anos. Dormimos juntos. Não, eu não fiz nada, nem um beijinho. Mas imagine, sua namorada, que está temporariamente morando na sua casa, chega as 7 horas da manhã e vê uma loira gostosa deitada com você. O que dizer á ela numa hora dessas?

-Calma, A. não é nada disso que você tá pensando! 


Caso você tenha a oportunidade maravilhosa de ser pego na cama com uma outra, acredite: tenha feito tudo ou não tenha feito nada, você não vai resistir ao cliché automático das novelas e vai dizer o que eu disse :
- Calma, (nome da sua namorada) não é nada disso que você tá pensando...


Eu falei isso e explodi numa gargalhada por estar falando o cliché mais novela das 8 possível.  A linda húngara que acordou com o lindo cabelo sendo puxado, com tapas na linda cara e ouvindo lindas palavras chulas que o português quase zero dela certamente não conhecia, não entendeu nada. Ainda mais porque eu ria e apanhava ainda mais da minha ex quando explicava que não tinha acontecido nada. Ria ainda mais e apanhava ainda mais quando falava que ela só dormiu comigo porque a casa dela tinha pegado fogo!

Depois da surra que acordou os vizinhos, meu amigo que morava comigo, acalmou e levou minha namorada pra fora do apartamento e na volta escutou a gringa dizendo:
-Você não quer que eu fale nada com sua namorada? Eu posso explicar que você não fez nada, que só foi super gentil e que só dormimos EUROPEAN STYLE...( amaldiçoada seja a Europa e seus estilos de dormir)
-Melhor não, N. você já apanhou bastante e vai apanhar mais se encontrar ela ainda hoje.
Assim, 7 e poucos da manhã, desço de short de pijama e sem camisa com a gringa até a portaria do meu prédio. Quando estou eu chegando no portão de saída do prédio acompanhando a gringa, minha namorada está voltando pro prédio: baixaria cinematográfica.
Então minha agora ex-namorada, depois de mais uma surra na gringa e em mim, dessa vez na portaria do prédio,  entra e sobe o elevador. Eu observo atônito e rio da surrealidade desta história real, baseada em fatos de cinema. A húngara sai e vai rebolando gostosona pela manhã numa rua de Laranjeiras.
O porteiro, um coroa sacana de 60 e poucos anos, observa ainda chocado, amarrotado e levemente arranhado por tentar apartar a peleia. Ele olha pra bunda rebolante da gringa, me olha e diz:
- Bom, pelo menos você comeu bem hein... haha Foda foi boa, né garoto?

Rio muito respondo:

-Antes fosse, seu Chico, antes fosse!
Depois de ter apanhado de short de pijama na portaria do meu prédio, depois de ter sido aviltado aos berros na Conde de Baependi, de ser chamado de galinha, piranhudo, filho da puta, cretino, sem ter feito NADA com a gringa... De fato, a cena que ela viu, não FOI nada do que ela estava pensando. Mas quer saber?
Antes fosse.






domingo, 6 de julho de 2014

Razões para se amar um cemitério

Hoje passei de bike no cemitério em frente as Clínicas aqui em São Paulo. Não sei o nome, sei que é gigante e lindo. Eu acho cemitérios em geral lindos. Primeiro me agrada a arquitetura, me agrada ainda mais o silêncio sepulcral literal que ali jaz. Além disso gosto de ver a data de nascimento e data de morte das pessoas, com quantos anos morreu? Quem deixou? As fotos dos rostos, imaginar quem foi a Virginia Romero, essa "esposa exemplar e mãe afectuosa" que deixou "saudades eternas" á família Romero, que nasceu em 1863 e morreu em 1925. Como foi a vida dela? Morreu de que? Onde está a família? Os amigos? Realizou tudo o que sonhou? Acima de tudo isso eu amo cemitérios pela lembrança inevitável e óbvia da morte, por constatar quanta gente morta está ali. Não leia isso como algo mórbido ou triste. Não é. 



Isso me lembra o Zé. Zé sempre foi um cara talentoso. Tudo o que se propunha a fazer fazia bem e sem muito esforço. Mas o Zé tinha medo. Ele tinha o medo brazuca de ser bem sucedido e se destacar. Nunca soube bem porque ele tinha esse medo, mas isso é problema de cada um. Sei que ele sempre falou em como seria assustador abandonar Petrópolis, sua namorada que ele comia por exercício do hábito sem amor há anos e aquela relação meia boca que mantinha por medo de ficar sozinho. Medo de fazer a escolha errada, e ficava estagnado. Até que um dia Zé decidiu mudar.

O sol se põem no cemitério das Clínicas, se põem pra todo mundo. Sempre.

Zé, aos 30 anos (idade de Cristo, afinal 30 também foi idade de Cristo antes dele morrer aos 33) decidiu que era hora de tentar viver seu sonho de viajar o mundo e ser fotógrafo como sempre imaginou. Quando Zé estava começando a organizar a viagem foi atingido por um retrovisor de ônibus que tinha a exata altura da cabeça dele e o pegou pelas costas, na nuca, enquanto caminhava pra sua casa em uma calçada de Petrópolis. Morte estúpida e inesperada. Mas qual morte não é estúpida? Qual morte é esperada? Tirando o nome "Zé", essa história é real, e poderia ter sido comigo, com você ou com alguém que a gente ama. Seria mais sábio de nós sempre lembrar da morte. É por isso que eu amo os cemitérios.

Falei do medo "brazuca"do Zé, porque vivemos em um país que historicamente tem a alma estigmatizada pela mediocridade. O medíocre é top no Brasil, bem mais que em outros países que vivi e passei. O medíocre é exaltado, o medíocre faz sucesso frequentemente. Roberto da Matta no livro "O que faz o brasil Brasil?" diz que é um resquício atávico da época em que o Príncipe Regente confiscava as propriedades que interessavam á realeza com o PR na porta. Muitas vezes eram as casas de melhor qualidade, ou seja,  de quem se destacava. Existe um paralelo com o fato isso do Zé de não querer se destacar, dessa síndrome de vira-lata. É melhor ser medíocre, melhor não acreditar e correr atrás do seu sonho de ser fotógrafo e viajar o mundo. Ser medíocre te faz ser parte da massa, te faz ser mais aceito, te faz ser igual e é bom mesmo, porque daqui a pouco você tá morto e morto todo mundo é igualzinho mesmo, tudo pó. 

Eu falo do Brasil porque vejo isso mais forte aqui, mas é algo que vejo como universal. A história da humanidade é marcada muito mais por exemplos de Zés e Robertos e tantos outros zeros, tanto gado que vive bem pra manada, mas não pra si. Quais barreiras são essas que bloqueiam as pessoas de chegarem nem perto do seu potencial máximo e dos seus sonhos antes de ir pro cemitério? E a resposta pra essa pergunta é outra pergunta: Qual é a característica mais universalmente inerente ao ser humano: medo ou preguiça?

O medo não é necessariamente ruim. Um medo pode ser uma reação saudável a algo que represente perigo, real ou psicológico. Quando a gente era homem da caverna ok, estou com medo desse animal porque ele pode me comer vivo, mas a gente não é mais homem das cavernas e aquela mulher ali que pode ser o amor da sua vida não vai te comer. (ok, com trocadilho sim, ela te come) Mas ela te comer é bom e não se tem medo a ponto de paralizar-se quando voce acredita muito que o resultado melhor e positivo vai acontecer. A gente não sentiria medo de abandonar um carreira pra investir em outra aos 32 anos se a gente tivesse certeza absoluta, ou talvez um contrato escrito em pedra garantindo que iría dar certo, a gente não teria medo de expor os sentimentos pra uma mulher que a gente tá afim se tivesse de alguma forma certeza que é recíproco. E aí é que está: a gente tem medo do desconhecido, de não saber o que vai acontecer. E o fato é que a gente nunca sabe, mas quantas vezes deixa de tentar pela simples insegurança do resultado desconhecido? Que seu sonho não vai acontecer se você nada fizer isso sim é 100% garantido.

Na verdade o medo em si, não é problema, mas como reagimos a ele pode ser. Existem 3 reações principais a uma situação que você sente medo: paralizar, agir ou fugir. Todas as três podem ser adequadas dependendo da situação e esse é o ponto: reagir de forma adequada ao que te causa medo. O adequado quem sabe é você, porque você vai sentir satisfação por ter escolhido como reagir e sentir que reagiu de forma adequada. Não existem garantias, tanto pode dar tudo certo, como tudo errado, mas o que não dá é imaginar como teria sido sua vida se você tivesse vivido aquele amor que te deu medo de tentar, imaginar e se você tivesse tentado ser escritor, e se você tivesse conseguido viajar o mundo. É adequado e proporcional ao que você tem  a perder o seu medo de largar o emprego que você não curte nada? É saudável seu medo de largar o relacionamento âncora que não te agrega nem complementa em nada? 



Você pode me dizer que somos humanos, demasiado humanos e precisamos pensar nas consequências. E se você não for capaz de conviver com as consequências da sua escolha? E se o caminho for pedreira? E se você  errar? E se? E se? Foda-se o "e se". "E se" não existe, é uma realidade que não há, é nossa imaginação do possível que não é necessariamente a realidade e que em geral são projeções pessimistas e ansiosas. Porque você não pensa "e se" eu largar minha namorada e começar um relacionamento muito mais foda. Não se trata de ignorar as consequências, mas de acolher e viver cada uma delas. Que bom que você tomou as rédeas da sua vida e escolheu. Só escolhas.  O tempo todo na vida é uma escolha e cada escolha é um caminho. Não existe escolha errada, quer dizer, tem sim: não escolher. Existe zona de conforto e não escolher por medo, ou por preguiça... E existe o cemitério te esperando.

E é por isso que eu e o Sr. Franco, um senhor de 80 e poucos que tem o mesmo nome que o meu e ia na mesma psicóloga no horário antes do meu, sempre concordamos que o nosso lugar favorito era o cemitério.  Visitar um lugar onde jaz tanta gente morta, me faz me sentir muito vivo, me faz ver como é precioso esse fato, me faz agradecer que minha mãe ainda está viva e não é a Virginia Romero do início do texto, mas me lembra que um dia será, todos nós seremos. O cemitério me faz ter menos medo de tentar, me faz querer mais e mais abolir o "e se" nefasto que atravanca e mata antes de morrer, leva pro cemitério todas as nossas vidas e sonhos preciosos que vão ficar só no imaginário. Sr. Franco brincava que o cemitério é um lugar precioso e cheio de tesouros por isso. Imagine quantos amores não vividos estão enterrados ali, quantos sonhos não realizados, quantas vidas que não foram vividas por medo ou preguiça ou "e se". Deixa pra amanhã. Deixa pra lá, dá muito trabalho. 


A preguiça é o verdadeiro plano do diabo pra tornar o mundo o inferno, dizia Jung. Ah deixa pra amanhã, ah não fala com aquela mulher não, deixa pra próxima, ah começa a escrever seu livro semana que vem, ah continua no conforto da carreira que você odeia e que você sabe que não tá te fazendo feliz pra comprar coisas que não são fundamentais, ah ano que vem você faz essa viagem de mochilão...
Deixa pra amanhã, pro mês que vem, deixa pra depois. Relaxa. Não corre atrás dos teus sonhos não. Aí toma um retrovisor de ônibus na nuca, vira comida de minhoca e é enterrado com o sonho de ter viajado o mundo como fotógrafo. Mas pode deixar que eu vou lá no cemitério te visitar e me lembrar como minha vida é preciosa.