quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Essa gentalha, os velhos

A gente tá ficando velho. Nunca pensei que ouviria esse clichê numa roda de amigos. Mas é isso mesmo, a gente tá ficando velho. E o mesmo vale pra você, se você é gente.

Eu e meus amigos de escola caímos no clichê que vi meus pais, então velhos pra mim, cometerem: relembrar os velhos tempos. Lembra daquele dia? E daquela vez? Daquela época? Quando você tem mais Passado do que Futuro, você vai para as velhas histórias.


Nesse dia também percebi o óbvio. Existe uma ilusão de que a nossa infância era mais linda e mais romântica e mais divertida e mais colorida e mais saudável que a das crianças de hoje que só querem saber de Xbox, Psp, Wii, e já tem Facebook, Twitter e Instagram. E tenha certeza que nossos pais pensavam que Amarelinha e Pique-esconde e Balão mágico e a Xuxa semi-nua com as paquitas sensualizando era muito modernoso, que a infância boa foi a deles. E tenha certeza que os pais dos nossos pais também achavam a mesma coisa. Mesma coisa é a nossa ilusão de que não vamos viver os clichês de envelhecer.

Envelhecendo, talvez por ter escutado tanto, você também vai soltar um: "Na minha época...". Essa também é uma frase escrotinha. Parece que está implícito que a época que você está vivendo não é sua né? Na minha época como assim? A época de agora não é sua? Ok, são expressões, mas expressões expressam alguma coisa e essa expressa mal alguma coisa. Você não vai ouvir um adolescente falando isso, "Na minha época, quando eu tinha 5 anos". Não. No mínimo desvaloriza o presente e o envelhecer sutilmente. Enfim, sutilezas da complexidade da língua portuguesa como cu que não tem mais acento.

A Odete Roitman dizia que o português é uma língua chinfrim. Eu lembro dessa frase porque foi quando eu aprendi o que era chinfrim. E a pobre da Odete, andando num dia de chuva por uma dessas ruas chinfrins do Rio, caiu de fuça. E com essa modernidade modernosa a gente ficou sabendo rapidão que a fuça dela tava fu. Edu Paes, "gente fina pacas", ligou pra ela depois que ela disse que ia processar a prefeitura ou sei lá quem porque eles tem dinheiro pra JMJ e pra FIFA e pra PAPA e pra UPP e pra PM e pra PQP, mas pra GENTE poder andar paz, não tem Paes? Lógico também que não é porque ela é velha e caiu de cara e ficou parecendo o Bandit do Jonny Quest, mas sim porque ela é velha e famosa. O legal é que a calçada que ela caiu continua esburacada.

Há duas semanas atrás num dia que também chovia muito, era umas 11h da manhã e eu estava no meu carro parado em primeiro lugar na fila em frente ao sinal da Farani com a Praia de Botafogo. Um velhinho, magro e nitidamente frágil, se desequilibrou com o guarda-chuva e o vento e uma outra rua esburacada dessas e caiu de cara no chão na faixa de pedestres. Você acha que o Edu ligou pra ele? Nem Edu nem nenhum cretino que tava nos carros do meu lado. Niguém ligou. O sinal abriu e neguinho arrancou o carro desviando do velho no chão! Tava muito frio, muita chuva, e ninguém ali vai envelhecer mesmo, ninguém ali tem avô, ninguém ali viu razão pra se molhar, ninguém ali é GENTE, né? Eu sai correndo, ajudei ele a levantar, parei um táxi e coloquei ele dentro. Larguei meu carro ligado, de porta aberta, no meio do trânsito e teve idiota que teve a audácia de buzinar pra mim.

De fato envelhecer é mesmo chato e duro. Chato literalmente porque a gente diminui de altura mas duro só com viagra. O corpo insiste naturalmente em falhar, e não só no sexo. O corpo funciona mais lento e quase tudo é pior, se você assim quiser enxergar mesmo quando não enxerga mais.

E será que ninguém além de mim enxerga e acha chato que não tem propaganda de cerveja com uma velha gostosa como principal? Velho em propaganda só se for de dentadura, remédio ou pra fazer gracinha e ridicularizar a velhice. Velho não vende. Velho não tem valor a não ser pra financeira que quer fazer empréstimo porque é interessante pra empresa deles, não porque eles acham os velhinhos fofos.

Falando nisso, ninguém ouve e acha bizarro essa coisa mesmo de falar: "ai que fofo!" ou "o velhinho, bonitinho, tadinho, fofinho" e outros inhos falando de velho, de velha, de casal de velhos? É tão comum, mas tão nocivo. Existe um sentimento de superioridade absurdo implícito nisso. Você usa essa expressão pra quem? Pra bicho, pra bebê, pra mendigo, pra criança... Você não usa esse tom pra uma pessoa jovem e sarada da sua idade.

Ninguém vende a sabedoria, a calma, a serenidade, que eu pelo menos espero ter triplicado daqui a 30 anos. Não tenho 80 anos e meu corpo ainda não falha muito, mas já tenho barba branca e metabolismo bem mais lento e espero daqui a 40 anos ainda ser considerado gente.

Esse discurso todo, mas eu não gosto de muita gente. Saí do Rio pra fugir da quantidade exorbitante de gente da JMJ e fui pra Petrópolis ficar com meus sobrinhos e jogar essas porcarias da criançada de hoje, tipo Xbox. Coisa mais idiota dessa criançada de hoje. Acabei jogando 3 dias seguidos só de raiva. Mas voltando ao assunto, a JMJ, acho meio tosco ser JMJ. Até a igreja com seus moralismos e politicamente corretos tem uma jornada pros jovens, porque não pra Gente? Porque não JMG?

Tudo isso contribui pra que meu amigo fale com certo pesar numa conversa "é... a gente tá ficando velho." Velho, mas a gente continua gente, meu amigo. Acima de velho, jovem, Papa, Puta, a gente é gente. E gente, pelamordedeus, se eu ou a Odete ou um PM ou o Paes cairmos de cara no chão, por favor ajude, todo mundo é gente.

Que velhinha fofinhazinha!

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